20101125

2h10 parte dois/post-conversa pro yuri brah

Só porque um dia teve parte um./Resolvi o problema.

particular

– Quanto mais particular é a coisa, mais ela se multiplica. Imagine um problema qualquer. Agora cinco pessoas pensando juntas. Agora cinco pessoas pensando separadas sem nunca terem pensado juntas. Somamos cinco problemas.
– Mas cinco pessoas tem um problema sem solução e cinco pessoas separadas tem cinco soluções.
– É só beber três goles d'água de cabeça pra baixo.
poema não põe mesa
nem mesa põe poema
e sobremesa?

LUTO

– Luta por quê?
– Luto porque alguém morreu.
– Ué, mas luta depois que morre? Sempre achei que lutasse antes e morria depois...

20101120

coração sem fundo:

1 nada comporta
2 tudo comporta

20101118

esse texto devia continuar, mas me deu sono e não confio em mim pra continuar depois, então, isso é tudo até não ser mais

Vou fazer o possível para que saibas o que eu não irei te dizer. Mas isso pode demorar algum tempo, talvez até alguns anos. Porque quando a gente vai envelhecendo, as coisas vão sendo contadas em anos, não mais em dias ou semanas. Tem uma curiosidade que lateja toda vez que ouço o teu nome sem ser em ti, mas isso não acontece de fato quando é em ti. Acho que nesse caso quem lateja és tu. É? Posso te dizer que tenho sonhado contigo e também que te misturo com outras pessoas algumas vezes. Isso acontece aleatoriamente e eu até gosto. Embolo um monte de sentimento diferente e sonho. Coisa de quem não tem mais o que sonhar mesmo. É que na desordem e na demora da vida, os acontecimentos vão sendo assim e se acumulam na memória. Montanhas e alpes. Sorvetes de creme. Não acredito que eu não dê conta de te fazer saber, mesmo assim, em segredo novamente. É aos poucos que o vento bate no rosto, vento sul serve só pra levantar a saia e deixar a gente encabulada. Quis dizer que vento sul não bate forte no rosto como bate nas árvores e nos telhados. Isso me lembra uma vez em que alguém dessa mistura dos meus sonhos me protegia do vento e das telhas que voavam. E nem vento sul era. Achei que ia morrer, então acordei. Morri pro sonho. Eu não estava muito ocupada, podia muito bem ter sobrevivido. Mas tu acordaste comigo, então tudo bem. Ficamos desocupados e desventados sob o início do dia. Tomamos café, conversamos e acabamos numa competição de quem consegue deixar o pão cair com a manteiga pra cima. Isso no prato, pra poder comer o pão depois. Mesmo com a tua insistência que a regra dos 3 segundos valia alguma coisa nesse jogo. Depois de algumas risadas e comentários comprometedores, nos separamos por algum tempo que não consigo contar no calendário. Talvez tu consigas. Quanto a mim, guardo o meu sorriso mais bobo e tímido pra quando eu pegar no sono e te ver de novo. Ainda que um pouco misturado com meio mundo, adoro os teus talvez mais ou menos não sei quem sabe e agora. Mesmo que isso não seja propriamente teu. Acho mesmo que não é, mas quem se importa? O que eu posso querer de ti se não os outros? Aí que está a graciosidade da coisa, a gente pode inventar as pessoas dentro das pessoas e depois acorda e passa o tempo até voltar a ficar com sono. O sono enquanto desfoque do passa-tempo quero dizer, não que alguém precise dormir pra isso. Aliás, a maior parte das misturas dentro da cabeça se passam sob um cafuné ou sob uma distração no meio da reunião. Ou sob o almoço mais bem preparado e temperado. Ou ainda sob a sobremesa sob o sol sob o guarda-sol. Ou sob os óculos-escuros. Ou sob o chão, pra quem mora em apartamento como eu. Ou sob as pessoas que dormem, pra aproveitar a mesma névoa e evitar mais um preparo pra desfoque. De qualquer maneira, de qualquer maneira.

20101117

das gentes que eu odeio:

gente que é desorganizada demais, que é desorganizada de menos, que quer chocar a sociedade, que nunca estuda e se acha inteligente, que é inteligente mas nunca estuda, que tem convicções sobre tudo, que não tem convicção alguma, que fala muito e faz pouco, que fala muito, que faz cara feia pra qualquer crítica, que faz cara feia, que critica tudo, que está sempre de mau humor, que está sempre de bom humor, gente que eu amo demais.

20101110

mudou-se o mundo

Até então o mundo era cegueta
e as pessoas dividiam sua única gaveta
por não enxergarem as meias encardidas.
Mas hoje não é preciso nem umas mordidas
pra tirar das barrigas a borboleta.

20101106










(se o meu pensamento fosse mudo
tudo seria tão mais minimal)
– Quem tem sono não tem jeito.
– E quem tem jeito não tem sono, lembro disso.
– Isto não é uma mão, é uma peça... Eu não tenho estômago, tenho um circuito.
– Não é nada pessoal, lembra? Foi o que ele disse.
– Claro que não, é tudo mecânico, disse eu.
– Como era? É ruim pra instituição...
– Isso! É ruim porque os índices aumentam. Um índice! Uma vez eu era indie, agora eu sou um índice!
– Ou um indício.
– Um indício de que quem tem sono não tem jeito e vice-versa.
– E quem tem sonho?
– Depende, só se for pesadelo.
– Tenho mania de escrever sem critérios, o que vem na cabeça.
– E?
– E aí que penso que nunca ninguém vai ler.
– E?
– E aí que às vezes umas pessoas dizem que leram.
– E?
– E aí elas tem acesso à bagunça da minha cabeça.
– E?
– E aí elas pensam que a bagunça sou eu.
– E não é?
– É, mas ninguém precisaria ficar sabendo.
– Quer dizer que isso não passa de uma mentira?
– Quer dizer que isso não passa.
– Quer dizer isso?
– Quer.
– Então isso fica?
– Isso.
– Fica onde?
– Onde?
– Isso.
– Justamente na mentira.
– Justamente?
– Não passa, fica nela e se torna verdade.
– Justamente. Entendi.
– Será que isso vai dar certo?
– Se não der, não passa de uma mentira.
– E se der?
– Verdade.
– Como?
– Come.
– Por que você está comigo de novo?
– Porque você está comigo de novo.
– Por que você continua assim?
– Porque você continua assim.
– Por que você não vai embora logo?
– Porque você é minha melhor casa.
– Vamos ficar aqui pra sempre?
– Até podemos, mas não acho uma boa ideia.
– Metade disso então, que tal?
– Depende. Metade de pra sempre é quanto?
– É daqui a pouco, dá pra contar nos dedos...
– Tá, vou começar.

[10 dedos depois]

– Posso ir embora agora?
– Não deu metade de pra sempre ainda, não percebes?
– Mas já se passaram 10 dedos!
– É possível que tenhas esquecido de regular teus dedos com o fuso certo, a culpa não é minha. Vamos ter que regular e começar a contar do zero.
– Mas não tenho nenhum dedo-zero e agora?
– Teremos que ficar aqui pra sempre, então.
– Como saberemos quando isso chegar se não podemos contar?
– Não saberemos.

amigos-almofada

O bom de ter amigos-almofada é que você pode deitar neles, apertá-los, mordê-los, socá-los, jogá-los contra a parede, pisar em cima deles e até mesmo espetá-los com alfinetes, como se fossem vudus, e, ainda assim, eles continuam sendo fofos, companheiros e vestidos com sua estampa preferida.

2 em 1

– Por que você nunca vai nas festas?
– Porque é tudo sempre igual, as pessoas são iguais, sempre iguais...
– Já que somos todos iguais, por que você não fica com o vizinho em vez de ficar comigo?
– Porque basta eu ficar contigo pra eu ficar com o vizinho.
– Eu juro que eu pensei mesmo em ir embora na hora certa, mas aí quando tinha terminado o pensamento, a hora certa de ir já tinha ido primeiro.
– O fato é que a hora foi e você ficou novamente.
– O que eu podia fazer se você deixou a gente na penumbra?
– Ir embora na penumbra.

20101102

a "palavra" grita

Tem vezes que eu queria chegar aqui e escrever um texto bonito, que dissesse as coisas de um jeito minucioso, longínquo, sereno. Outras vezes lembro que no mínimo uma farpa deve conter nesse texto pra não tender à náusea. Eis que me deparo com as palavras que formariam essa maciez e essa rigidez, por vezes se alternando, outras vezes se completando. Aí as palavras me conquistam e eu esqueço o tal assunto bonito-ríspido que eu queria desenrolar nas linhas. Penso na primeira palavra e já vem de súbito a segunda e a terceira. Como se a maciez que eu quisesse colocar no texto estivesse na palavra "maçã" e a rispidez na palavra "criar". E uma loucura na palavra "explica" ou "ceroula". E raiva na palavra "rápido" ou "ventilador". Algo como: "Cria nessa maçã que te explico rápido como vestir uma ceroula na frente do ventilador." Esse texto é completo, compreende?
boicote
coyote
boicute
coybeauty

Cotidiano

Desalinho. Desfaço. Despeço. Que é pra acontecer na volta. Desvolto e pontuo. Faleço, embriago e continuo. Sorrio e mudeço. Meço, calço e morro. Desmorro. Desmaio. Desejo. Que é por quase nós. Desato. Que é por alinhavo. Desuso. Que é por descanso. Que é por deslize. Montanha. Mala. Mostarda. Que reprova, que renova, que revoga. Queda.

20101101

Desengano é isto.

Corro leve, levo as folhas entre os pés e pouso. Flutuo mais um pouco e desmaio sobre um pedaço da paisagem azul. Sobre a terra vermelha nublada. Tudo turvo sob os olhos. Todos olhos sobre a névoa. Toda névoa. Toda. Até não sobrar nem um fio latente de sereno. Azul-pardo. Se eu fosse outra pessoa, podia não estar enjoada. Enjôo de tão somente sentar na poltrona e pensar em água, em vinho, em xícara sobre xícara. Amanheço em mar de náusea. Só de sentir, só de morrer pro sono, só de viver e andar. A cada piscada uma tentativa nova de adaptação. Um brinde de piscadelas à cegueira voluntária. Ops, telefone: "Alô, desculpa, foi desengano" me disse o moço ainda a pouco. E me desligou. Posso trocar a cegueira pela surdez?

Fernando Pessoa esclarece:

Mas o que fica de sentir tudo isto é com certeza um desgosto da vida e de todos os seus gestos, um cansaço antecipado dos desejos e de todos os seus modos, um desgosto anônimo de todos os sentimentos. Nestas horas de mágoa sutil torna-se-nos impossível, até em sonho, ser amante, ser herói, ser feliz. Tudo isso está vazio, até na ideia de que é. [...] A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. [...] É tudo um caos de coisas nenhumas.

Bernardo Soares