20130527

o rosto passa o tempo fica

o rosto empasta o tempo ramifica

20130525

ser-se

a fria temporada está chegando ao fim. pois a lagoa está exausta. pois o rumo se contorce. o inverno mal começou, mas o frio já está por partir. vira-vira resistência à vida. dá o nó do outro lado. calma, paciente, internamente. te contenta com a chuva. experimenta estar aberta. guardar o verde, as vagarezas do tempo, as máquinas de fazer palavras. guardar-se para então viver-se. para então soltar-se e reaver-se. tem mais quente do que estação.

20130524

Por esquecer:

Você se contorce, se torna insuportável, quando não por suas palavras, por suas observações quietas e suspeitas, que vivem te julgando, por todas as pessoas que você alimenta dentro de si mesma. Te estapeiam, te fazem convergir pra esse bife de alma reclamão e mascarado, que esquece de viver pra mastigar a si mesmo, suas memórias, suas sensações de hoje do que foi, sua ficção interna, passada como um filme por dentro da sala-de-estar do estômago. Várias vísceras acomodadas, esperando o suco de laranja do meio da tarde, a pizza do começo da noite, a saliva engolida em seco do fim da madrugada, sendo ela que te tem nas mãos... As mãos da madrugada são aquelas que te acolhem, te fazem menos carente de ti mesma, mais carente do mundo, enxergando por entre o sono a linguagem dos outros que te habitam por todos esses meses, e te fazem esquecer, nos dias que seguem escorrendo, o quanto você se limita no tempo, o quanto vive de lembrar, esquece de esquecer e morre de viver. Mas nem tudo se encontrou, nem tudo se resumiu, nem tudo foi vivido, pois algo se perdeu, graças, e ali que você está quase por chegar, só mais uns meses e está pra nascer, esse outro lugar, esses outros convidados a te terem nas mãos. Por entre a madrugada, num terreno baldio.

20130521

tô estranha

tô entranha tô em transa tô em transe tô entre ânsia e coisa que franze que manha que apanha de mim de ti dele e do mundo inteiro enquanto o corpo caramujo escondido em mim em ti nele e no mundo inteiro tá em transe tá em transa tá entranha tá estranho que coisa que manha que fronha que foi enquanto isso

20130515

junta amor de lá
corpo daqui
e até que dá
um aconchego
chovi no sonho
acordei poeira


emilly terres

20130512

filó me olhando,

de barriga pra cima, de olhar profundo e orelhas atentas, como se eu fosse sua mãe, com meu olhar raso e orelhas escondidas por trás dos cabelos, servindo apenas para segurar o óculos, este que nasceu no lugar daquele que ela comeu, mastigou algumas partes e engoliu outras, como se me dissesse: se usas este óculos para que tuas orelhas existam por algum propósito, como-o, para que enxergues melhor com o próximo a minha barriga pintada, que um dia serviu para teu último óculos.