20131010

pensar é mato

é enlouquecedor reparar na quantidade de coisas que fazemos só porque "é certo" "é bonito" "é legal" "é costume". talvez porque a liberdade, em absoluto, não exista... estamos sempre submersos: nos outros, no mundo, na cultura, nas loucuras sem explicações......... desde comer carne sem pensar, se depilar sem pensar, ser machista sem pensar, querer emagrecer sem pensar, se enturmar sem pensar, gastar água sem pensar, comprar sapato sem pensar, etc. etc. etc.

de tudo, pensar parece ser o mais libertador. 
pelo menos podemos pensar.

20130919

aí eu nasci

e começou a chover na minha vida
como se eu não tivesse nascido
começou a trovejar
e eu nem sabia por onde começar a viver
com tanta chuva
e tão poucos banhos quentes
ninguém me fazia feliz
nem eu a mim mesma
em lugar nenhum

devo ter nascido pra correr
atrás do prejuízo ou de anteontem
talvez pra comer até enjoar
ou pra simplesmente olhar pra vida
e continuar sem entender nada
como se isso tudo fosse apenas um teste
onde eu nunca entendi o que devia fazer
mas um dia poderia passar a limpo
mesmo assim

talvez logo eu possa desistir de tudo
das provas finais
dos apitos de largada
e dos falsos amigos
da coisa mal escrita
mal pensada e mal olhada
desses ovos que todos pisam
(tanto faz quem são eles
pois se refletem infinitamente um no outro
mesmo os que se odeiam)

trovões chutados
voluntários
no pessimismo nosso de cada dia

20130918

uns dão com a língua nos dentes
outros dão com os olhos nos cílios

uns dão com a língua nos cílios
outros dão com os olhos nos dentes

esbaforida melancólica entorpecida catastrófica langorosa ramificada transgênica maltrapilha atulhada escanifrada lancinada incondicionada atarracada

(saudade)

20130916

com quantos bocejos se faz um sono?

com quantos sonos se faz um sonho?
com quantos sonhos não se faz mais nada?

20130906

compro e vendo estouro.

compro e vendo louro.
compro e vendo agouro.

20130904

tem gente que inventa

tem gente que transventa

tem gente que esquece
tem gente que transquece

tem gente que enxerga
tem gente que transxerga

tem gente que parasita
tem gente que transita

eu gosto de escrever,

mas não gosto de ser lida. eu só consigo escrever quando entro na frequência do meu esquecimento. ou ninguém lê, pro caso de um texto público. ou ninguém lerá, pro caso de um texto num bloquinho pessoal. é por isso que morro de medo de morrer. e de pensar que alguém pode ler meus textos um dia. até aqueles que escondo de mim mesma, que detesto pensar que eu posso relê-los. aliás, se eu me releio, ou me deleto, ou me rasgo, ou me mudo, ou me cego. só não me mato. enfim.

20130827

post-conversa - com tortov

(se tu for coerente algo deu muito errado, não?)
(se algo deu muito errado eu fui coerente, sim?)

20130826

papo de quem não dorme

ai, eu...
oi? que?
oi?
não.

20130825

pedras, quem são elas?

e se as pedras
exatamente elas
corcundas
clivadas
estiverem se movendo
mas não como animais ou plantas
elas tem outro tempo
o que fazemos em dias
elas fazem em dez anos
o que fazemos em anos
vai multiplicando
mil vezes mil vezes mil
mil vezes mais lentas
mais ventos
mais tempo à vista
na lista
na pista
alpiste
chispa
cuspa
risque
fuja
das pedras
que elas um dia te alcançam

20130822

6h

em meia hora minha vizinha acorda.
em duas horas eu apago o sol e bocejo.

20130821

Morder as letras como se fossem pedaços de pão e sentir os acentos como se fossem orégano? Ou chuva?
em plena-plana quarta-corta.

20130814

diamantes descritos diariamente
são amantes entes dias restritos
amam&mamam atritos quentes

na mesa durante o jantar da página 62:

- A palavra salta contém sal, tá?

minha pele zonza

meus tons de pele
meus tons de sons
meus sons de pele
caótico é um caô do ótico

20130812

- alô, quem fala?

- quasefalha
- alô, quem falha?
- quasefala

20130810

meus amigos são aqueles que não têm dúvidas que eu sou aquela que tem dúvidas de quem é

espirro. respiro.

mentira.

20130724

correio que saiu pra entrega e nunca chegou é o novo marido que saiu pra comprar cigarros e nunca voltou. vai ver o moço do correio foi entregar a encomenda pro meu marido.

20130717

até tirarem o suco do teu sufoco. pois conseguiram. te digo ainda. que eles são tu.
Absurdo ler o que devia dilacerar a ponto de morrer e, para começar, preparar a sua lamparina, uma bebida, a sua cama, dar corda no relógio. Rio disto, mas o que dizer desses "poetas" que se imaginam acima das atitudes deliberadas, sem confessar que têm, como eu, a cabeça vazia: - um dia, mostrar isso com exatidão - a frio - até o instante em que nos quebramos, suplicando, quando cessamos de dissimular, de estar ausentes. 

BATAILLE, Georges. A Experiência Interior. Editoria Ática: São Paulo, 1992. p. 43

20130716

o túmulo do ridículo

são firulas

são fissuras, são lisuras
não complica, minha língua
se trumbica, especifica
essa súplica, sútil, suturada
sátira, saturada, cintilante
tá sempre de frescura
de linguagem
linguaruda

20130709

quando eu achei que me livrava,
me caía isso na cabeça,
livro com palavra
va.

20130702

o tempo engolido pelas piscadelas.

muitas horas vivem dentro de piscadelas. será por isso que mortos são enterrados de olhos fechados? estariam eles finalmente vivendo o tempo perdido? pálpebras são poços para viagens no tempo?

20130701

Menos eu sou.

Quanto mais profundamente sabem quem eu sou, menos oportunidade eu tenho de ser múltipla.

20130630

preguiça social. consigo mesmo.

queria poder dizer pra mim mesma: vamos dar um tempo? acho que vai ser melhor. pra gente refletir se é isso mesmo que queremos e tal.

20130627

o que incomoda:

- é a máquina, no sentido ruim de máquina
- é a máquina no sentido homem, no sentido ruim de homem

20130613

tá ficando difícil acreditar nos fatos. é muito absurdo pra pouco brasil. a esperança passou, já era, mas já que chegamos no inferno, o jeito é correr e gritar. é bomba atrás de bomba. e assim vamos convivendo com o susto que é fazer parte dessa história. correndo com amarras e gritando com mordaças. de olho num horizonte cego, em meio a essa fumaça opaca, num embrulhar de estômagos.

20130609

1min devir filósofa-poeta-mimimi

2min a pesquisa é um grande gramado, sem começo nem fim, com um monte de folhinha variando seus verdes e formas, muito parecidas, mas cada uma com sua diferença
4min imagina, a pessoa cria tópicos com vírgula entre os números e depois notas de rodarodarodapé. podia, mas dá preguiça de defender até isso depois (onde?)
6min (essa nota sobre a nota de rodapé)
7min devir nota de rodapé, no infra/extra-ser do texto, fazendo comentários sobre a própria fala
4h 11/06 cortar o que falta sem falta (totalmente no clima)
10h agora: comer. pq de vento ngm diz nada. segundo uma grande filósofa chamada "minha mãe"
10h por isso que interessa falarfalarfalar: sobre o que pulsa, não sobre o que se disse: sobre o que vive, não sobre o que morreu com a palavra
10h a questão não se passa sobre dizer alguma coisa, mas sim sob dizer alguma coisa, isto é: descobrir o que faz pulsar a coisa a ser dita

lovni

o limite da imagem

imagine a quantidade de referências existentes no mundo.
o mundo é infinito.
imagine a quantidade de referências não-existentes no mundo.
o mundo é infinito demais pra imaginar.

20130604

adoro quando dá felicidade do nada

adoro o nada e quando ele me dá qualquer coisa. mesmo que nada. pois adoro o nada e quando ele me dá qualquer coisa. mesmo que nada. pois adoro o nada e quando ele me dá qualquer coisa. mesmo que nada pois adoro o nada e quando ele me dá qualquer coisa. mesmo que nada. pois adoro o nada e quando ele me dá qualquer coisa. mesmo que nada. pois adoro o nada e quando ele me dá qualquer coisa. mesmo que nada. pois adoro o nada e quando ele me dá qualquer coisa. mesmo que nada. pois adoro o nada e quando ele me dá qualquer coisa. mesmo que nada. pois adoro o nada e quando ele me dá qualquer coisa.

20130603

A máscara não esconde o rosto, ela o é. [...]

O retrato, a rostidade, a redundância, a significância e a interpretação intervêm por toda parte. Mundo triste do significante, seu arcaísmo com função sempre atual, sua trapaça essencial que conota todos os seus aspectos, sua farsa profunda. 

Deleuze e Guattari, Mil Platôs Vol. 2, p. 66 e 68

20130602

conversa de pensamentos

~bom de foto ou de desenho é que você não precisa falar nada pra dizer.
~ué, e quem disse que com texto eu preciso falar alguma coisa?

um poema me dizia

"eu te amo eu te amo"
acontecia: tapa na cara
"cala boca" retrucava
"vai pra puta que o pariu"
de novo acontecia: tapa na cara
"cala boca" retrucava
quem tu amas te ignora
quem te ama acontecia
"eu te amo eu te amo"
tapa na cara
"cala boca" retrucava
"sai daqui"
"vai pro inferno que te parta"
quem tu amas te ignora
"cala boca" retrucava
acontecia: tapa na cara
não é de todo mal
se nem amas nem nada
o que diabos seria?
"sai daqui cala boca"
tapa na cara acontecia

20130527

o rosto passa o tempo fica

o rosto empasta o tempo ramifica

20130525

ser-se

a fria temporada está chegando ao fim. pois a lagoa está exausta. pois o rumo se contorce. o inverno mal começou, mas o frio já está por partir. vira-vira resistência à vida. dá o nó do outro lado. calma, paciente, internamente. te contenta com a chuva. experimenta estar aberta. guardar o verde, as vagarezas do tempo, as máquinas de fazer palavras. guardar-se para então viver-se. para então soltar-se e reaver-se. tem mais quente do que estação.

20130524

Por esquecer:

Você se contorce, se torna insuportável, quando não por suas palavras, por suas observações quietas e suspeitas, que vivem te julgando, por todas as pessoas que você alimenta dentro de si mesma. Te estapeiam, te fazem convergir pra esse bife de alma reclamão e mascarado, que esquece de viver pra mastigar a si mesmo, suas memórias, suas sensações de hoje do que foi, sua ficção interna, passada como um filme por dentro da sala-de-estar do estômago. Várias vísceras acomodadas, esperando o suco de laranja do meio da tarde, a pizza do começo da noite, a saliva engolida em seco do fim da madrugada, sendo ela que te tem nas mãos... As mãos da madrugada são aquelas que te acolhem, te fazem menos carente de ti mesma, mais carente do mundo, enxergando por entre o sono a linguagem dos outros que te habitam por todos esses meses, e te fazem esquecer, nos dias que seguem escorrendo, o quanto você se limita no tempo, o quanto vive de lembrar, esquece de esquecer e morre de viver. Mas nem tudo se encontrou, nem tudo se resumiu, nem tudo foi vivido, pois algo se perdeu, graças, e ali que você está quase por chegar, só mais uns meses e está pra nascer, esse outro lugar, esses outros convidados a te terem nas mãos. Por entre a madrugada, num terreno baldio.

20130521

tô estranha

tô entranha tô em transa tô em transe tô entre ânsia e coisa que franze que manha que apanha de mim de ti dele e do mundo inteiro enquanto o corpo caramujo escondido em mim em ti nele e no mundo inteiro tá em transe tá em transa tá entranha tá estranho que coisa que manha que fronha que foi enquanto isso

20130515

junta amor de lá
corpo daqui
e até que dá
um aconchego
chovi no sonho
acordei poeira


emilly terres

20130512

filó me olhando,

de barriga pra cima, de olhar profundo e orelhas atentas, como se eu fosse sua mãe, com meu olhar raso e orelhas escondidas por trás dos cabelos, servindo apenas para segurar o óculos, este que nasceu no lugar daquele que ela comeu, mastigou algumas partes e engoliu outras, como se me dissesse: se usas este óculos para que tuas orelhas existam por algum propósito, como-o, para que enxergues melhor com o próximo a minha barriga pintada, que um dia serviu para teu último óculos.

20130425

cri-cri

(crise criativa)

20130424

completamente incompleta

visto agora minha camisa-de-fraqueza, meu olhar fracassado, minha espada partida ao meio, minha boca-aberta, minhas pernas bambas e sigo. não importa se sou poeta ou o diabo. ou se o diabo é poeta. ou se a pedra. ou se a queda deserta. infarta. capeta. fica esperta. neném tem cara de esfinge. ou de planeta. não importa. quantos pontos de luz te seguem por trás das orelhas? raposas. alertas. caretas mestras. te enganas. e segues. te enganas e te ganhas em sucessivas respostas. gritarias. risadas. solidões tão sós que nem o sol. tanto mendigo a espreita te esperando passar. te curvas. te cai nas mãos uma escuridão. uma montanha. passos soltos e quase mortos. são as vidas que te seguem. já mortas. pedintes. te derrubam e não te levantas. nunca mais ou nunca menos. não importa. prisioneira de ti ou do mendigo ou do diabo ou do poeta. alguém se importa. a esfinge. só a esfinge te completa. mentira. conferes. por favor. eu me curvo cada dia mais pra enxergar o que há de mais alto. o que há de menor na ponta do último ar. sob a primeira cova depois do nascimento da esfinge. céus. terras. submundos. sobre-mundos. só as caretas desmazeladas. amarradas com barbante do mais barato. bem apertadas. até tirarem o suco do teu sufoco. pois conseguiram. te digo ainda. que eles são tu.

20130418

O problema é que ninguém substitui ninguém.

E justamente por isso, vai ficando cada vez mais difícil de arranjar espaço pras próximas pessoas. E quando tu te dá conta, teus sentimentos antigos estão tão apertados que parecem ainda mais pesados, maciços, incríveis, contrastantes com esses sentimentos frouxos que entram aos poucos, ficam por pouco, se doam em partes... Quem vem ficando com o espaço presente, acaba tão leve que voa com um sopro. Mas também volta com um sopro. Até que alguém venha e empurre-o tão pra dentro em tão pouco espaço que não mais sai, que não mais pesa pouco. Mas dizem que o presente é sempre o outro. O outro, não esquece.

depende.

me sustenta. me suspende.
sos.
me sus.

20130410

Amassar palavra pra fazer pão de texto.

Gosto mesmo é de começar texto do zero-a-zero. Pois que aflição que me dá ter que ficar remendando frase, sacrificando palavra pra fazer nascer outra no lugar, quando sou obrigada a escrever texto do zero-a-um, do um-a-um, do zero-a-dois ou qualquer coisa que venha a empacar o pensamento. Tirou do zero-a-zero, pois pode empalhar, vai ficar pros seres cibernéticos-magnéticos-proféticos o resto. Não, mas não assumo mesmo esse risco de ficar amassando página e página como se fosse massa de pão. Aperta, contrai e cadê que chega a hora de ir pro forno? Massa de texto é assim, quando chega o momento de assar, ele passa tão, mas tão rápido, que nem raio de trovão, que a gente nem sente, só arrepio. Quando vê tá lá, amassando mais um zero-a-um, zero-a-dois ou dois-a-dois. Quando vê tá lá, fazendo as palavras praticarem yoga, alongando e distribuindo o texto de tudo que é jeito. Quando vê tá lá o sol, as pessoas, os cachorros, os livros e tudo o mais, passando o tempo no parque, ouvindo uma música alto-astral e pensando em fazer pão quando chegar em casa. Não é assim? Bom mesmo é pão sem remendo, pão que é feito de várias ideias e posto no forno até ficar pronto. Pois se abre o forno, já sabe né. Temos pão batumado. Denso, tão denso que fica difícil de ler, decifrar de onde vieram os pensamentos, de tão consistentes. Mas, sabe, uma massa aerada, uns momentos de respiro, pensamento leve, sem esgotamento, que abre espaço pra mais texto, pra mais trigo, pra mais. É difícil dizer, mas prefiro escrever aquilo que não como.

20130401

Apavorada, devoro ares por nada.

Nesse silêncio social, burburinho de arroz ficando pronto, ânsia de sair correndo antes da hora. Nessas coisas que só por dentro cabem, nem palavra alguma ou sutileza antiga decifra. Pois já é hora de encontrar outras áreas, outros raros pares, azares, tentares, se aproximares de mim. Ágar-ágar, afagar, afogar, fenestrar, fissurar, ronronar, arranhar, enrugar. Roliças e insolentes tentativas. Fisgar, fugaz. É tudo que quero. A minha espera é nesse meio-tempo, culminar os minutos sobre as horas, os segundos sobre os dias, os milésimos de segundo sobre os anos. E assim vai. E assim vamos. E assim recuperamos um a um os elogios. Calamos sílaba por sílaba, passo por passo. Toda a saliva se transforma em mar e nos leva. Aproveitar a saída, a rasteira, as dicas proibidas, inibidas, fingidas, últimas, celestes, pestes, doenças contagiosas. Tosse crônica é a voz de quem perdeu a voz mas não pára de falar, de esbarrar ranhuras, luzes, línguas, lisuras ou asperezas. Gafanhotos, marmotas, bergamotas, espertezas. Vamos discutindo, conservando, pepinos e vampiros. Tanto sempre faz tanto que desfaz. Vômito na ponta da língua, texto azul e frios apertos. Como se fosse algo que dura, mas contudo zero-a-zero. É na guerra que te enterro entre as guelras que não mais respiram. Lobos guarás e raposas laranjas vislumbradas com as hienas gritando aos gargalhos, te chamam de gárgula. Te reprovam por excesso.

20130331

parte de ti

parte de ti silencia,
parte de ti
cacofonia.

20130326

Falar pra dentro
Engolir pra fora
Nadar no vento
Abraçar por carta
Cada felicidade

20130321

se me conhecessem diriam tudo por uma boca só.

um diz que sou amorosa e querida. o outro diz que sou grossa e ainda certinha demais. já outro diz que tenho feito tudo errado na vida.

sair da linha. cair no plano.

não ser convicto. nem coerente. discordar do próprio pensamento. desconfiar de si mesmo. intuir ser outro. noutro. com outro. e aí que está a segurança de viver errado. na insegurança que é cambalear. cair e não levantar. ser feliz no chão. com o chão. para o chão. na dúvida que está em cada decisão. na incisão de cada dúvida. na sinceridade dos vultos que vivem por dentro do corpo. nos órgãos afagados por almas terceiras. nas lamúrias amigas e nas petúnias dissimuladas. pois o mundo é são demais. o mundo é pronto demais pra viver. tira o chão. e aí? como cambalear sem chão? não poder cair é o cúmulo do céu sem chão. não poder voar é o túmulo de quem se acomoda nas nuvens.

20130314

é mais eu aquilo de mim que não entendo

é maisena ou esquilo de tinta que em vão invento
é uma pena farinha de milho no pão ao vento
é pequena a gota do nilo no cão mais lento
é amena a brisa em quilo que tão logo tento
é em viena que o mirtilo furacão ciumento
quando quem quer que esteja lá, quando de fato está. dentro da tua cabeça. quando tua cabeça 'tá mais pra lá do que pra cá. quando não sabes o que se faz aqui. quando mesmo, ainda que não, ainda que quase nada aconteça fora da cabeça. porque dentro da cabeça é o fora do mundo. e por dentro ninguém repara. só apara. apara. apara. para. compara fora e dentro. porque cabeça de ninguém 'tá pra negócio.

20130311

(a vida é só uma parte da dúvida)

20130310

por ânima.

desse vício de desejar partir. de querer sair. de dentro. de quando se entra. de quando se tem a vida em lugar algum. por conquistar o fora. por fora. roendo a vida pelas bordas. até consumir tudo o que der. tudo o que couber. nas palavras. por procurar outra borda inteira. pra roer de vez. e partir de novo. pra viver. eu preciso sair. de mim. o tempo inteiro. até que o desequilíbrio volte. o desconforto. a desconversa. a timidez. até que eu não me reconheça mais. de uma vez. de outra vez. por todas. de todas. por nenhuma. por ânimo. desvio. de mim. sempre que posso. disfarço. ser outra.

20130305

20130228

Acordei com a frase: oito nomes para uma letra.

Imagine se cada letra tivesse um nome, algo como: se o nome da letra A fosse Bruno e o da letra R fosse Felipe, respiraríamos Bruno Felipe Bruno Felipe Bruno Felipe... Agora imagine oito nomes para cada letra!?!

Bruno Alice
Débora João
Maria Clarice
Flora Damião

Felipe Emília
Isabela Manoel
Aline Patrícia
Luiz Gabriel

Seria uma baita função respirar.

28/11/2012

Todas as ideias porta afora, caminhando sobre a grama, de passo a passo sob o sol, bêbado amarelado: gelado sol porta adentro, palavras de um lado pro outro, se aproximando umas das outras enquanto as sílabas se espreguiçam em dois litros de coca-cola.

21/11/2012 - carta

Poderia te escrever uma carta se acaso as palavras que viessem até mim fossem aquelas que pairam entre nós, que não se limitam a chegar em ti, que não se limitam a sair de mim, mas que se conversam entre si, palavra com palavra, e roubam nosso ar ao suspendê-lo num respiro próprio.

Meu avô fumando palheiro

,
minha avó enrolando os cabelos
,
um dia ensolarado
,
primos pra tudo que é lado
,
de noite a canastra na mesa
e a criançada na cama
,
mal sabiam eles que a gente continuava
pulando em pensamento.

Não deve ser fácil

esquecer tudo assim, como num grito solto por dentro do corpo, que te corta ao meio em te deixar a sós com o mundo afora, em teu mínimo andar cambaleante sobre a borda de uma dessas xícaras que tu empilhas com tanto amor sobre a terceira prateleira, uma dessas xícaras onde qualquer um bebe, mas sem te fazer cair, mesmo que pra sempre fiques ali, sem lembrar nem esquecer o abismo que foi o teu falecimento.

20130218

pequenas tragédias

desgraças miúdas
minúcias falácias
fiascos funestos
híbridos batuques
beliscos profanos
injúrias puídas
vícios nocivos
dias infestos

20130216

aquilo de que se desistiu. 
se largou de mão. 
se empurrou ao vão. 
que se latejou. 
se revirou. 
cortante. 
criou raízes.
internamente.

20130129

mal-amor.

no mistério que é a dor do outro. no outro secreto. obscuramente. no sentido ausente. na não-vida e na não-morte. sobre as nuvens picotadas. sob a terra. entre as larvas. pasmas. famintas. entre o que seríamos e o que somos. nos desbotamos. nessa catástrofe contínua. fingida vida.

20130116

estado: caindo

(entre cair e não cair, pausa no gerúndio)

20130112

ganhei uma liberdade de presente

peguei ela e engoli. prendi minha liberdade em mim-

20130105

além rua além lua além nua