20120531

bobiça

arrumo o sofá com almofadas: saio e olho de volta: bob derruba algumas, deita e pensa olhando pra mim: "tinha pouco espaço pra deitar, poxa"

20120529

quasefala do bob

em dia de trovoada:
~esse cachorro rosnando deve ser imenso!

20120526

hás

Há pessoas sobre as quais posso afirmar que não entendo nada do que dizem, mesmo coisas simples como: "Passe-me o sal". Não consigo entender. E há pessoas que me falam de um assunto totalmente abstrato, sobre o qual posso não concordar, mas entendo tudo o que dizem. Quer dizer que tenho algo a dizer-lhes e elas a mim. E não é pela comunhão de idéias. Há um mistério aí. Há uma base indeterminada...

Gilles Deleuze, Abecedário - letra "F" de Fidelidade


Há mistério aí, pessoas.
Há pessoas aí, mistério.
Há aí, mistério/pessoas.

me cala e me muda.
me planta e me mala.

20120523

desassossego estapafúrdio

20120521

entre as suspensas prosas

relato e convenho, pratico injúrias e cítricas plenitudes pessoais, reparo brevemente e me retiro até a parede: que me esvai, me enquadra em andamento afirmativo, sim senhor. estamos aqui, sentados, pálidos ou bronzeados, ricos alfanuméricos, pressentindo um mar de ventania, bobeando, babando, brotando das cobertas geométricas. colírios são eles que nos pressionam: cóleras, coleiras, pulgas e alpargatas. eles não existem senão como grãos semi-visíveis: cintilantes, crocantes, abóboras. minha pele me coça, me ossa, me mira em mim mesma. molhados os olhos, me viro pra noite: converso comigo e me abraço, não me derrubo em desgosto, tenho liga e me embaço.

e cereal

estou cada vez mais pro inútil praquelas vidas todas que são pazes de plissar de jogar em aterro em enterro de ar de céu de mar qualquer coisa que insiste em passar pisar na terra nas guelras pulsantes pensantes flertantes com nuvens com sóis com sílabas capazes fugazes assaz em mel em miados em melados em véus sentidos capturados rompidos em cinco em dez em vinte e três soquetes raquetes ou placas vedetes ao meio-dia e meia corneta faceta azul de coringa marítimo ou ritmo ímpeto precipício de ossos

20120517

Uma lasquinha de sol no rosto,

logo pela manhã, deixa uma das dobras da testa um pouco mais iluminada das loucuras todas: loucas! loucas! loucas! A dobra é a menos tresloucada do que todas as outras. Ela é a única que percebe toda a aflição das dobras enquanto lutam para todos entenderem: as coisas não passam, as coisas franzem! Onde é plano as armadilhas estão armadas ou em processo de armação, já onde é franzido, todos sabem, as armadilhas dormem. E a luz, caso pegasse em plano, queimaria qualquer loucura em extensão de pele e isso soaria como a maior sensatez de todas: o medo de mudanças e de andanças: a pele lisa e única em sua polidez. Armadilhas dormidas não mais, o que seriam das faces dormidas se as peles-sensatas não percebessem a aflição das dobras? É um único/é um úmido/é um vício. O que é plano escorrega as coisas para frente, para trás e para os lados, como se nada se misturasse o tempo inteiro, que é inteiro por não ser segmentado em elegantes peles estáticas na [vida]. Não são camadas e não são organizadas, são só banhadas num todo que se encontra a todo instante e brilha por ser de gel, de geléia ou de doce-de-leite. Peles brilhantes descansam em paz e em doçura.

[2009]

20120514

desvida, mas não morte

20120507

Penso em cobertas azuis ou vermelhas

quando estão bem amarrotadas e cheias de sono. Viviam me dizendo para arrumar a cama: espantar meu sono de lá: enxotar os franzidos da noite. Eu nunca gostei muito desse método para acordar, gosto de saber que meu sono está guardado por dentro das dobras da coberta (pode ser a azul ou a vermelha). Parte do meu sono vem comigo para o banho: lá se vai sono ralo abaixo (ralo é rico em sono)(barata se alimenta de sono para não precisar dormir)(sono e cabelo se atraem). Mas a coberta, oras, não precisa disso, não precisa do dia dentro dela, ela é amaciada de sono, sonho e aquela dispersão de gente deitada. Por dentro das dobras da coberta tem uma sensação de livro de página amarelada, aconchegante e dormida. Cada franzido tem engolido um pensamento (ou dois, isso depende do espaço que cada pensamento ocupa no franzido e do espaço que o franzido tem para cada pensamento). Franzidos não estão só na coberta, mas também nas testas (com sono ou sem sono, com pensamento ou sem pensamento). Tem testa que franze tanto e é tão vazia, tem testa que franze pouco e transborda e tem testa que é certa, é focada na [vida], pensa e franze num equilíbrio que só na maior disperção das coisas planas que se consegue notar. Tem testa que é como coberta vermelha. Tem testa que é como coberta azul. [Tem testa que é do Tokyo e tem testa que não. Tem coberta que é do Tokyo e tem coberta que não.]

[2009]

vida franzida de roupas, pés, maracujás e nenéns

[eu me movimento][eu me dobro][a minha vida franze][a minha mãe chama franzir de emburrugar][eu me emburrugo toda][a minha saia é plissada][a minha roupa amassada eu não passo][a minha vida não é passada][a minha vida é franzida][a minha vida se encosta nela mesma][as dobras dos meus pés também][a minha testa franze pouco][as das pessoas variam][os maracujás me entendem bem][os nenéns também]

[2009]