20081223

Pro mundo todo um sol bem sorridente
que no meio dos dentes tem uma semente
com um pouquinho de algodão
embebido em água de açafrão
pra crescer um verão menos quente!

20081221

in(certeza): caminhar

1os caminhos incertos são mais __l__o__n__g__o__s__
2todos os caminhos são iNCerTos
3as incertezas estão todas no mesmo caminho~~~~~~~~

leyla

leyla é vazia antes do almoço e cheia depois. só pára em pé cheia de comida. vazia, leyla não pára quieta porque está a se esvaziar das palavras. quando leyla está vazia, ela fala. quando leyla está cheia, ela silencia. leyla almoça palavras de comida para parar em pé. e na fala de novo se esvazia, pois já está noutro dia.
Eu quero mesmo é viver nos meios,
aqueles que de névoas são cheios
como o travesseiro onde entrei ainda à pouco
que nem disfarçou este mundo louco:
que mistura pessoas lindas com fatos feios!

[leu luio)


m e i o c h e i o
m e i o l e i g o
t e m r e c h e i o
s e m r e c e i o
m e i o m e i g o
[ l u i l e u i o )

eu, mundo e fim (ou filme)

eu vou aprendendo que o tempo é uma coisa louca mesmo. depois que vi o homem vendo sua própria morte enquanto menino pensei em duas coisas: 1quando eu encontro pessoas na rua, pessoas desconhecidas, uma delas pode ser eu mais velha ou eu mais nova, ou as duas coisas, ou várias delas, ou ainda eu de outras maneiras por viver em épocas culturalmente e de espíritos distantes 2uma hora ou outra pode ser possível eu pegar um caminho para onde nunca fui? e então não me encontrar na rua ou em outros lugares em outras épocas e conhecer pessoas que nunca conheci e me apaixonar por isso de estar sozinha e longe até de mim mesma?

que coisa estranha é esta das pessoas estarem sempre presas aos blocos da vida... eu ando e penso que as pessoas são só da minha cabeça. é, mais ou menos isso. se eu resolver mudar a minha cabeça as pessoas vão mudar também. e eu vou ser aquela outra-eu que esbarrou em mim enquanto eu caminhava no super-mercado procurando o iogurte perfeito para o dia de hoje. parece uma coisa meio egocêntrica dizer que eu me encontro por aí nas outras pessoas. mas a verdade é que as coisas são egocêntricas. e alguém consegue pensar no outro sem se colocar no lugar dele? numa dessas somos todos a mesma pessoa em fases da vida diferentes.

eu gosto de experimentar raízes. não só raízes amargas ou adocicadas ou salgadas. às vezes eu gosto de pensar só nas texturas. mas o que eu gosto mesmo é de procurar raíz que não tem fim. aquele tipo de raíz que termina só depois do fim das pessoas. o meu fim é menos e o fim da raíz é mais. e o mais legal de tudo é saber que alimentando a raíz ela vai crescendo e acaba ficando maior que todo mundo junto. é difícil de acreditar, eu sei. mas tudo depende do objetivo quando se está experimentando. quando a textura é boa mesmo o meu objetivo é não alcançar o fim. mas mesmo que eu alcance eu faço de conta: ah, que fim você acha que é pra já ir chegando assim?

elogio à preguiça

Já me chamaram de bicha-preguiça
mesmo eu não comendo lingüiça.
Sonhei até em dormir para sempre,
mas nem aconteceu que eu me lembre...
Lingüiça é língua que enguiça?

20081219

Tô tetris tô triste
por que sorriste?
Nem prestas nem sol,
falei pro caracol:
ainda bem que sumiste.

grávido caminho grave

cada passo era mais devagar que o último. quase parei. mas voltei a andar fazendo mais pressão contra o chão. diminui a velocidade de novo. bem devagar. bem devagar mesmo. diminui devagar e aumentei com pressão. a pressão servia pro caminho ficar mais macio. e grave.

o caminho ficou tão longo. a rua ficava cada vez mais comprida. parecia que quanto mais eu andava mais longe de casa eu estava. como um sapato que era novo e ficou velho. laceou. esta é a palavra certa para rua de hoje. laceada. eu andava e laceava a rua. e ela ficava longe até dos meus pés.

os meus movimentos estavam tão lentos que eu percebi coisas que nunca tinha percebido. vi uma casa que não tinha telhado na frente. atrás a casa o tinha. pisei devagar e respirei rápido. ela era algo novo e pedia para eu tratá-la de maneira diferente das outras vezes. eu caminhei um pouco mais rápido. contrastei com a pisada lenta. pisei lento como se não tivesse gravidade.

o caminho estava grávido de passos lentos e pisadas fortes. e depois pisadas leves. e então fortes. e então leves. leves como dançar balé de um jeito livre. o pica-pau dançava balé de um jeito livre na minha cabeça enquanto eu via o mapa da áfrica no meu vômito. mas esqueci de me concentrar no gato que saiu por trás do lixeiro. lembrei que o caminho teria muitos passos ainda pela frente. mesmo grávido de coisas graves. ou leves. ou fortes. o caminho estava parindo os meus passos.

esse caminho estava anoitecido por horas. amortecido. laceado e amaciado.

desse caminho nasceu também uma barata gigante. a barata estava me esperando em casa. já entrei com passos que pressionavam o chão contra o mundo. a barata se escondia e me enganava. eu jurava que ela tinha entrado no cesto da roupa suja. e isso era a coisa mais horripilante que podia acontecer. pior que tirar pica-pau dançando balé da cabeça.

não! o caminho me trouxe para conhecer uma barata não tão covarde assim. ela não daria um golpe tão baixo em mim. ela passeou com passos leves e fortes e outra vez leves e outra vez fortes pela casa. o banheiro foi o mais pisado. ela foi por cantos e por lugares estreitos e duros. eu procurava a maldita sebosa e ela fazia questão de não aparecer. até que eu resolvi buscar a vassoura para me auxiliar junto com o chinelo. ele não saía por um segundo da minha mão.

antes de buscar a vassoura e me distanciar do local do crime eu verifiquei que a monstrenga estava atrás da minha caixa com o quit para depilação. e saí rápido para voltar rápido. mas quando voltei, não! ela não estava mais por lá. fiquei tempos olhando. ela passou então suas gosmentas antenas por baixo da porta. ela tinha esperanças que eu não sabia onde ela tinha se metido. metida.

foi, então, que a insolente achou que aqueles passos rápidos iriam adentrar o meu quarto cheiroso e virgem de pisadas nojentas? aquele momento era a minha chance. confesso que foi horrível. minha primeira vez se preencheu de muitos golpes. nem tão certeiros assim. eu não queria que ela sofresse, mas eu não tinha outra maneira de vencê-la. ela estava no meu território. não era minha a culpa. espero que a família dela ache que ela foi viajar e nunca mais voltou. ela foi para a áfrica. ui.

20081205

[eu me desdobro]

procurei procurei procurei: vidafranzida. e lá eu frazirei de maneiras mais ou menos franzidas de vida.

a paula apalpa e lava as palavras e as larvas

pal avras
pau la
lar vas
pau la
lar vas
pal avras
pau lar
la avras
pal vas
la vas
pal avras
pau lar

20081202

casa, coisa, mundo, chuva, alma, fome e sede

o mundo está faminto. e come. é isso que eu vejo nas notícias: o mundo comendo as casas e as pessoas. o mundo comendo a alma das pessoas que roubam as pessoas que chovem por dentro. a terra do mundo ficou mais macia. ficou tão macia que ficou apetitosa. o céu não a quis mais seca. e então a terra desabou dentro do mundo. dentro de todo mundo. em cima das casas e das coisas. o mundo não pára de ter fome de terra. a terra está se comendo. e a terra vai sumir dentro dela mesma. assim como as pessoas que estão desabadas. e desalmadas. porque as pessoas se dividiram em duas. as que querem as coisas e as que querem as casas de volta. o mundo está para secar a água toda. o mundo há de ter sede. e há de beber essa água e deixar a terra seca de novo. e deixar os olhos das pessoas secos também. e as almas? as almas já estão dentro do mundo. as almas o mundo não vomita mais.

20081124

eu misturo as coisas

eu misturei alegria e tristeza. mas sem água (sem chuva). como se uma fosse sal e outra fosse açúcar. mas sem água (sem chuva). porque senão vira soro. ou choro?

as casas boas compensam

tem uma pessoa que mora na minha casa e está de aniversário. essa pessoa me deixa mais quente por dentro. ela não chove (ela é a chuva). e não me faz chover. eu amo essa pessoa e quero que ela tenha as coisas mais bonitas e intensas da vida. e das casas. e das pessoas. e das coisas. eu quero essa pessoa sempre por perto.

a casa tá vazia e limpa

a casa ficou vazia até nos cantos. os cantos tão limpos de pó e desgostos. a casa tá vazia e limpa. tá desinfetada mas tem afeto. as pessoas são como casas. porque uma hora você tá com uma pessoa. e assim você fica. você tá com essa pessoa e no outro dia você tá de novo com essa mesma pessoa. e você faz várias coisas com essa mesma pessoa. todo dia ou muitos dias seguidos. e então, a pessoa some. some de dentro de você. como se você fosse a casa da pessoa. aí a pessoa fica limpa e vazia. limpa de afeto. e chove. a casa e a pessoa tão vazias, limpas e chovem. a chuva limpa toda casa e mata. mata as pessoas. mata as pessoas dentro das pessoas. e a casa das pessoas também morre. a casa de fora. a casa que tem pessoas com outras pessoas dentro. o mundo também é a casa das casas. o mundo tá frio. as pessoas e as casas. eu já entristeci demais com as casas. eu já me mudei demais das pessoas. eu não quero mais chover. você precisa desabafar. eu não gosto de pessoas abafadas e nem de pessoas convictas demais. casas convictas deixam as pessoas presas. e se chover dentro das casas? as pessoas morrem presas, abafadas e com outras pessoas dentro. a minha enxaqueca vai passar daqui a pouco. logo fico um pouco trêmula, limpa e vazia de enxaqueca. e de desgosto. eu sentei na sala e olhei pra parede. e a parede piscou de afeto. eu vou amar a parede. vazia. e limpa. pelo menos a parede não chove.

20081122

ch-ar

areia pra passar:
passeia, ar
ch com uva, ch é luva
luva de uva
chuva de chá
chuva de ar
chá de ar
ou chá de uva

20081107

engolir graça

Volta e meia (ou meia volta ou volta inteira) a minha concentração se (re)volta (meia ou inteira) pra pensamentos longínqüos sobre abraçar e pedir desculpas (meias ou inteiras) e começar de um zero que nunca existiu mas sempre se fez de conta. Que pensa meu inconsciente(?) pra me fazer tontear em minúcias acontecidas no passado (que nem se quer, hoje, existiram sem fatos-registros), ter ânsias de vomitar frases finas e compridas de amor-louco e desejos de sair correndo atrás com as mãos e braços livres pra abraçar tão forte e apertado até todo ar acabar e sobrarem só as vísceras para serem vomitadas (tão misteriosas e invisíveis) que eu veria e sentiria o que é essa coisa que ainda não está completa dentro do meu corpo? Por muitas vezes me disseram (e ainda me dizem vez ou outra): "não corre atrás (nem meia nem inteira)!", mas sempre de um jeito "nunca corra" em negrito, como se correr fosse piorar em múltiplas e incontáveis vezes meu estado de ser e estar (pros outros, não pra mim). Acho que a negação de orgulho me explica (como pessoa que corre e abraça): o que acontece é que quando, em últimas circunstâncias, o orgulho se manifesta de mim, ele vai à força pra fora do meu corpo, num estado de choque e tristeza.
Eu tenho coração de maria-mole, mas ninguém me engole.

20081104

partes inteiras e pedaços de partes inteiras ou partes não-inteiras e inteiros sem partes ou pedaços

Parte inferior do pé do homem ou dos animais, que pousa no chão. Mosquito, mosca ou abelha. Objeto locomotor de inúmeras cabeças. Coisa asfaltada com pressa de motor de moto. Poeira mal localizada dentro de casa. Desejo de inspirar colega em lugar úmido. Coração de computador. Nescafé com leite sem ninho. Papo de sapo corrupto em meio à socialight. Olho de toppo giggio. Rabo de escultura metálica e rabugenta. Gente que coça o nariz o tempo inteiro. Canto de coruja. Dentro da casa do vizinho do condomínio que dá saudade. Coração de maria-mole e coração mole de Maria. Farinha de mandioca embebida em saliva de lagarto. Hipnose por perda ácida e macia. Fim físico com peles conversando e toques suaves e frios. Entendimento desprovido de explicação das entrelinhas. Martedi vuoto.

Planta da família das compostas.

(alguns nascem para ter saúde.
outros para ter saudade.)


Planta na família das compostas.
Planta composta nas famílias.
Famílias compostas das plantas.
Família das plantas compostas.

deu ou dará?

de uma hora pra outra as coisas têm que sumir: essa é a regra. some some, coisa. ai, que coisa que não some de miiiiiiim(imimi). pensa com o cérebro, eu interior, por favor. deu de pensar com coisa que não pensa, que coisa! assim coiso mesmo, as vezes eu queria mesmo assim coiso mesmo, as vezes eu queria mesmo assim coiso mesmo, as vezes eu queria mesmo assim coiso mesmo, as vezes eu queria mesmo assim coiso mesmo, as vezes eu queria mesmo assim coiso mesmo, as vezes eu queria mesmo assim coiso mesmo, as vezes eu queria mesmo assim coiso mesmo, as vezes eu queria mesmo assim coiso mesmo, as vezes eu queria mesmo assim coiso mesmo, as vezes eu queria mesmo assim.

20081103

tetris triste

te tris
tris te
te tris
tris te


amodi

odiamar
amodiar

amodi é moda: amor de ar

tris-te s-em mei-o


ar. sabe?
é só. sssó.
vento:
arrápido.
(adi.ar odi.ar)
não ven:
tô tris-te
s-em mei-o,
sem péia
nem cento.
e tossi:
tossó.
ah! mei-o.
ou vento.

20081101

parágrafo efervescente

Eu tropeço no ponto final da frase e caio de cara na próxima frase fervendo. Mas isso fui eu que escolhi: não quero abrir livro meu e ler frase morna por mais tempo que frase fervendo. Eu quero uma vida efervescente. E que faça sssh bem forte de ser lembrado. Quanto maior o ponto final maior o tombo. Quero ser pastilha grande: quero sssshiar alto, bem alto. Quero um ponto final grande pra ter um tombo grande pro próximo ssshh. E pra isso tenho que ter frase gelada pra então ter frase fervendo depois. Frase morna é só por tempo de descanso. Mesmo que eu fosse de ferro, ferro também é fundido. E o ferro fundido e eu só descansamos em morno quando estamos no inverno (isso é regra - que também pode ser fundida). (E agora não é mais inverno.)

meu cabelo mágico

Começa o ano e mais uma corzinha na cabeça. O cabelo sabe muito bem do que se trata essa cor (é o amor! é o amor!). Tinta de cabelo é poção mágica, qualquer cabelo pintado é afetado. É como se fossem qüadores-de-café e canetinha. O qüador sou eu e a canetinha é a tinta. A tinta vai pela cabeça e deixa o coração colorido. De coração em coração, de cabelo em cabelo, são novos paraísos. O desejo de ter um cabelo colorido não é coisa que se explique, é coisa mágica! O cabelo, simplesmente, precisa de uma cor (de amor! de amor!). Devo as minhas cores de cabelo aos meus amores. Qual será a próxima cor? (e o amor? e o amor?)

sái gosma

agora eu já não sei mais o que acontece: se são os sentimentos que ficam dentro ou se sou eu que fico dentro. sim, burra quando sinto, eu sou. mas eu sou por que eu entrei no sentimento e ele me tirou o cérebro em posição de ingresso ou por que algum sentimento entrou em mim por orifício qualquer e então me contagiou, pegando meu cérebro como refém? eu não tenho convite pra sentimento algum (e que isso fique claro), mas tenho pontes. e essas, malditas sejam, tomara que quebrem todas. odeio pontes (talvez porque eu as ame). acho que as coisas podiam ser mais soltas. sentimento nenhum tenho sentido solto de mim. é sempre: ou eu dentro ou ele dentro. pegajoso.

uma coisa me complica o pensamento, tenho que confessar: como posso estar dentro de um sentimento que só existe e só existiu pra mim? no caso eu não poderia estar dentro de um sentimento contigo se tu nem se quer lembras dele. e se é o sentimento que está dentro, como uma alma um pouco pior do que as almas que não existem (porque o estado da alma de "não existir" é pior do que qualquer alma), como pode termos tido uma ponte entre nós se não existiu uma base tua? a ponte quebrou por isso, teus sentimentos são tão misteriosos que enganam existir. eu sou curiosa. onde escondes teus sentimentos? é como páscoa. é isso(!). conclui esse pensamento incômodo: tens sentimentos de chocolate e eu os comi. comi todos pra agora estares vazio. como um saco vazio sem batatas ou sem farinha. és todo vazio do mesmo saco (e eu sou de saco-cheio). teu saco é nada, entendes? e se não tens nada, não te quero. o único problema é que teu vazio é pegajoso e está dentro de mim. porque até teu preenchimento que eu comi é vazio. estou cheia desse teu vazio pegajoso!

algumas outras coisas têm sido pegajosas: enxaqueca é uma. sabe passar roupa? a minha enxaqueca eu passei hoje. é, passei minha enxaqueca à ferro. passei por dentro, assim como se passa camisa de formatura pra ficar bem lisinha. a minha enxaqueca está tão lisinha quanto o teu dentro. assim, sem ranhuras, sem estragos e sem preenchimentos. és como a minha enxaqueca, tenho que te passar à ferro fervendo. pra te estragar, pra morreres de mim. mas com muito cuidado pra não te grudar lisinho. quero-te desfeito, desmaiado no tempo, desintegrado ou invisível. ou talvez nenhum dos dois. talvez o que eu queira é um vazio no teu lugar que está em mim. mas estás grudado, praga! sái que esse lugar é meu e eu prefiro vazio meu do que tu vazio em mim. és pegajoso, mas não pegas nada.

20081031

fio-farpado

Não adianta acabar com ela, ela não vai, ela nunca vai (nunca mesmo!). A única coisa que ela vai é estar sempre ali, esperando um fio de memória, e desta vez, então, ela vai puxando e puxando até arrastá-lo com ela. Ela puxa forte. Tão forte que arranha. O fio é arrastado por onde ela quiser. Pelo corpo todo se ela quiser. Faz doer o que achar melhor. É como se fosse farpado. Um fio-farpado. Uma memória-farpada. Que está e estará ali ainda depois. Grudada. Mesmo que ela seja escondida, ela não morre e não evapora. Ela é de fio grudado (como eu disse antes: grudado, grudado e grudado). Um fio grudado e farpado. Grudado em todo resto. Mas mesmo assim, falando meio pra dentro, um dia poderá existir um jeito de dissolver farpas. Ou mesmo escondê-las ou transformá-las. Usar-se delas como ponte ou base. Algo assim. Ou alguém.

suma!

Acordo lá pelas tantas da madrugada, arrasto meu sono até o banheiro e tomo um banho de começo frio com fim morno, arrumo meu cabelo devagar até parecer bonito ou desarrumo meu cabelo rápido até parecer bonito, corro para quase perder o ônibus e me esmago entre as pessoas: uns olhares pra cá, outros pra lá, algumas curvas enjoativas, pensamentos e pesamentos na cabeça: cliques, muitos cliques pesados à mão livre: a tua presença na minha cabeça pesa e a minha cabeça pende prum lado e depois pende pro outro, ela fica em movimentos de quase-cair: eu a vejo cair e rolar entre os pés de cada um que pensa, mas não com os pés: em coisas que não são ditas, em coisas que não são ditas mas poderiam ser e em coisas que foram ditas, que são ditas ou que serão ditas (as vezes ali mesmo pra algum outro pensante-pesante): de jeito irritante e ininterrupto: tua presença na minha cabeça: sendo tu algo e não alguém: vegetal e não-humano, comível (palpável) e não-poupável: nada que não se possa criar em qualquer lugar (assim como fungo) ou se achar criado por luz alguma ou por sombra: por todas as vezes dispensável e invisível: essa tua mais querida fase-vapor desmaiada em mim: (ela é tua, mas fui eu que ventei dentro).

20081028

por subir e morrer o dia todo

por subir o morro todo dia
por subir eu morro o dia todo
por morrer eu subo todo dia
por subir o dia eu me morro toda

20081018

o soluço é o início da solução

Corpos em cacos costumam conversar
mesmo quando estão a se dispersar,
pois contam com latas de moça fiesta
pra grudá-los todos através da fresta
e adocicá-los sem mais nada precisar.

20081016

(estou desistida) um texto mal escrito prum contexto mal escrito:

É_SEMPRE_RUIM_________
ser bom é ruim/ser ruim, é claro (é claro por quê, né?), é ruim/equilíbrio é mais que ruim: é perfeito/ser perfeito é péssimo/----ascoisasnãotêmpaz-----/ser um ser é um saco/é mais que um chá de tão saco: ser-ser(!) (duplamente um saco)/é mais que um saco: é um saquinho! (quer mais saco que diminutivo de saco?)_________
SACO, RUIM E PERFEITO são todos dos infernos dos quintos.
De repente o sexto dos infernos seja menos que tudo isso... E isso, talvez, seja o que tem de bom: SER MENOS
MAS se ser bom é ruim, tudo deve ser sempre duplo de saco-------saquinho (afe!)

É, acho que é isso: as coisas vivem em saquinhos.
E os saquinhos vibram de pele de membrana quando as coisas são faladas (ou berradas! berrou?).
SÃO SAQUINHOS DE MEMBRANA CHEIOS DE CERA.
----------falar_é_comer_cera_involuntária------------------------------------

20081014

oi et, mora comigo?

vou morar dentro da geladeira, da vaca, da geladeira, da vaca, do leite da vaca, do iogurte, do almoço de ontem, do suco de uva, da luva, da chuva, do gelo, da fronha, do puLO, do sOl, do céu, da nuvem, da névoa, do sono, do bocejo, da cama, da lama, do gel, da geléia, da geladeira, do gelo...

20081012

Vi por aí uma alma sem dono,
rastejando triste com cara de sono.
O que lhe faltava era o corpo teu:
a casa que um dia me comeu
como qualquer bolacha bono.

20081003

Quando voltei pra casa passei por largos labirintos,
e olhando pra fatia de lua estive em pensamentos sucintos:
quase transparentes de tanta gentileza,
que lá por dentro fizeram eu não me sentir presa,
mesmo que o caminho me levasse pro inferno dos quintos.
Acontece que agora sei o que escolher,
porque até a alma tem cabeça pra perder.
E mesmo com o professor ali girando,
eu fiquei horas e horas pirando
pra ver a água da cabeça ferver!

20080928

Quero as 
palavras 
que 
sirvam 
na 
boca 
dos 
passarinhos.

Manoel de Barros

20080927

Aprendi que o mais importante não é o hardware.
Porque se de porco for o firmware
não há software que vire Mac,
nem que abuse de muito beck
num dia de sol ou em outro qualquer.

(máquina de corpo, de espírito e de personalidade)

- oi? ponto último ideal? você está aí?

As coisas fazem o tempo.
Mesmo que ele não tenha passado pelas coisas ainda.
O tempo é só coisa-de-vento: que empurra um pouco o pensamento pra lá e pra cá.
Mas ele não dá conta das coisas: não tem força pra isso.
As coisas têm viva própria. Elas fazem o tempo delas.

20080925

Ai! Hoje virei uma Graciosa Rodela D'alho!
Admito que foi pra conseguir chorar no assoalho.
E como se não bastasse o ato meu
Deusarina ainda me compreendeu
e me disse: "agora sim vais poder tocar chocalho!"
Ontem eu pisei no pé dum fantasma,
e então descobri que ele tinha asma.
Foi um passo pra trás e quase cai
e cheia de fome eu o senti;
a minha barriga roncou e fiquei pasma!

20080924

Ele faz várias cabeças sem base
e não é uma coisa de fase.
Nada passa assim tipo chuva,
é muito mais como pé de uva:
não passa, mas está sempre quase.
Nem quero mais pensar na Saudade,
só quero que ela não me faça maldade.
Já estou cheia de açúcar e formigas,
mas é porque as coisas doces são tão amigas!
E olhem que isso nada tem a ver com a tal beldade.
Aquelas que olham com o canto do olho
são as que mais gostam de comer repolho,
não praticam esporte nas quintas
e costumam ter róseas pintas:
peludas e grandes como afirma o caolho.
Quando vejo alguém tendo chilique
logo penso: "essa pessoa só pode ter aplique!"
Já que não teria outra explicação
pra ficar gritando como se fosse solução.
Até parece que acha loucura chique!
Outro dia vi um céu cheio de pássaros,
e então voei e vi que eram todos raros:
todos tinham boca, olhos e nariz;
foi quando gritei, sem hesitar, como um chafariz:
"é por dentro que as coisas precisam de reparos!"

20080923

Eu não vou nunca saber do outro o que se passa
porque se eu tentar saber assim de graça
vai ser mentira, porque será só meu ponto de vista
diante do que eu mesma sinto e sigo à risca
e no fim não vou passar de uma palhaça.
Algumas pessoas da família são de outra família,
mas todas as três são da mesma ilha:
têm um M como começo,
são lindas e não têm preço,
ligam pra mim e nem precisam de pilha.
Tinha um cachorro de rua todo encardido,
entretanto ele não parecia perdido;
queria ter metade da sua confiança
pra viver tudo com ar de dança,
como o vento que ele tinha mordido.
Eu espirrei ainda à pouco um monte de poeira,
e quase que caí desesperada da beira...
Foi que antes mesmo do vento
eu fiz um movimento lento
que me fez dar a mim mesma uma rasteira.
No comprido rio que tinha aqui no quarto
passavam sempre duas primaveras em parto:
uma por baixo do pano
e outra por dentro do cano,
sempre em duas, rastejando que nem lagarto.

20080914

o seu olhar seu olhar melhoramelhora o meu

arnaldoantunes

quase-quase

por que a fala some?
e é na chuva agora
e ainda se esconde
e não me leva embora

pra que tudo isso?
de se perder no céu
era tudo tão fixo
escrito no papel

e eu registro
e eu registro
minha quase-fala
minha quase-mágoa
de doer até o cabelo
de dar nó no joelho
pra tudo se perder
e nada se ajeitar

naan

outvenção é uma ventania pra fora
outventar é o vento que fica fora dos ventos

(eu outvento e eu invento)
inventar é ventar dentro do vento
o vento de ventos é inventado por dentro
pra fora do vento é só outventar
qualquer fora

xô!vida

1 barulho de chuva para dormir
2 cheiro de grama em dia de chuva
3 banho de chuva com boa companhia
4 pisotear a lama até cansar
5 corrida de pingos d'água em vidro
6 filme em dia frio de chuva embaixo das cobertas
7 pisar a areia recém-chovida
8 sorriso chuvoso ou chovido meu

20080910

trova trovão que não trova nada

se não trova não é trovão
se não é trovão não trova
um trovão não trova nada
nada trova feito trovão

um trovão não é nada
nada é trovão de nada
nada é um trovão
um trovão não é nada

se um trovão trova nada
se não é trovão nem nada
senão trova não é trovão
o que é um trovão?

um trovão não é nada!
um trovão não é nada!
nada é um trovão!
senão é trovão nem nada?
é um trovão de nada!

20080909

me tira dessa vida, marina

vai, por favor, me tira

eu quero viver como criança
só brincar sem desconfiança
num mundo todo colorido
onde nada faz sentido
como um muro pra pular
sem precisar pensar

é que eu preciso pular o muro
de dia ou até no escuro
eu só não quero continuar aqui
nesse faz-de-conta que eu caí
e foi de cabeça e agora ela dói
porque tudo se destroi

tododia-tododia
me vê a tal da alegria

20080908

3 de setembro

Até pude dizer, com a minha velha concepção de 3 de setembro, naquela hora precisa (que foi a primeira vez que escrevi com o ônibus em sua tão veloz corrida pela Beira Mar ou por qualquer curva ou por qualquer rua estreita...), que foi o dia mais oscilante que já vivi. Eu vivi esse dia sentindo tudo quanto é coisa. Vivi tensa, vivi "sensa sofito", vivi densa: vivi propensa a chorar e logo depois ser a pessoa mais feliz. (A essa hora do texto eu começara a ficar tonta... o ônibus corria mais que todas as Lolas...)
E foi depois de ficar tonta que eu percebi que o ônibus que eu havia pegado era o direto! Que sorte a minha! A letra já ia ficando mais feia por causa do morro da Lagoa, e também era por causa do morro que eu estava quase vomitando. E dessa vez não seriam palavras.

por coisas mais mágicas



Uma Fatia de Sofia

_ Sorria, Sofia! Veja que lindo que nasceu o dia! - Sofia ia e percorria o dia com toda empatia

_ Eu quero brincar de gato mia - dizia e ria Sofia de alegria

A única coisa que Sofia não queria era ficar pra titia... que, de resto, na vida de Sofia, ela fácil-fácil resolvia.

_ Assobia, Sofia! Assobia!

E corria Sofia da família como quem nada via...

_ Espera, Sofia! - e tudo silencia - Que entupiu minha pia!

Ai, Sofia, que agonia. Como se não bastasse toda falta de harmonia, ela ainda era aquela que os problemas resolvia!

Foi quando Sofia, da noite pro dia, resolveu que ia pra Bahia. - e ria, a menina Sofia, de alegria, como se na Bahia a pia sozinha se desentupia...

_ EU TENHO ALERGIA À DESENTUPIR PIA! - gritava Sofia, de agonia

e sorria e sofria
e sofria e sorria
e sofria e sorria
e sorria e sofria

_ MAS QUE MANIA MALUCA DESSA GURIA!

E era uma gritaria porque Sofia não se decidia se sorria ou se sofria.

_ Eu sabia, Sofia, que toda essa melancolia era por desentupir pia todo dia.

E, então, Sofia resolvia sua apatia na padaria, tododia-tododia, e tudo agora parecia satisfazer a guria.

_ Olha a alegria, senhorita Sofia! Nada de fobia e cia!

Sofia não mais sofria, pois sentido não mais via em passar tão longe da alegria.

_ AGORA SOU FRIA! - exclamou, por fim, essa guria Sofia.

20080906

sobre o meio


a metade da vida é o que passa
a outra metade é desconhecida

e o meio, ah, esse sim!
é no meio que as coisas são agora e boas, como sempre. como as coisas boas que passam e passam pra metade de lá. e, então, as coisas boas passadas viram as coisas ruins de agora. e então as coisas ruins passam de novo, e vão também pra metade de lá. e, depois de tudo, as coisas boas e ruins passam, e o que fica? nada fica, tudo passa, o que tem agora são coisas novas que nascem. nascem de onde? nascem das coisas boas e das coisas ruins passadas. as coisas sempre deixam restos pra agora não ser nada. o que será que nascerá daqui a pouco pra ser agora?

Tenho 5 minutos em cada mão.

Levanto um minuto, e dois minutos depois, tenho três minutos. E então, minha mão inteira se levanta em pouco menos de cinco minutos. E quando chegam os cinco minutos inteiros, perco a outra mão, que tem mais cinco minutos pra voar.

Pra segunda:

Segunda-feira serei Sofia
sem saudades e sem soluços
e sem qualquer ironia.

Será a segunda sem certezas,
mas será certa de desapegos
e preenchida de levezas.

NÃO É SIMPLES SER SOZINHO

SER SÁBIO É SER SECO E SAUDÁVEL SEM SOFRER SAUDADE
SOLETRAR SOLUÇO É A SOLUÇÃO PRA SOLIDÃO
SILENCIAR CIÊNCIA É O SENTIDO DA SERENATA
SALADA DE SOPRO SATISFAZ O SONHO SOLITÁRIO
SEQÜESTRAR SELETAS SALGADAS SÓ ASSUSTA OS SURDOS
SENTAR-SE SOZINHO AO SOL É SABER SILENCIAR
SENTIR-SE SECRETO PARA SALVAR O CÉU DA SUCATA
SER CÍNICO E SORRIR SEM CESSAR
SONHOS SELVAGENS SÓ SURGEM EM SOROCABA
SENTIR-SE SOFIA E SOLIDÁRIA E ASSOBIAR SEM SARCASMO
SOU SÓ DE SUSTOS
SALGADOS E SECRETOS

Meus meios soluçam.

Quando o meio entra em estado de soluço, não há silêncio que pontue um fim.
A finalidade de pontuar, em teoria, seria a possibilidade de iniciar outro meio.
Essa enxaqueca são as palavras pulsando em meus olhos: lacrimejam os meios sem fim sem silêncios certos.

20080831

silence will never betray you _mel kadel

vou a pé. vim da segunda rodada do café da tarde. comi bolinhos de chocolate, estavam deliciosos.

como a cuca de côco.
como a cuca de côco.
como a cuca de côco.
como a cuca de côco.
como a cuca de côco.
como a cuca de côco.

With sadness in my heart and joy in my mind

I thought about the ghost that we left behind.
With everyone around telling us what to do
with deafening sound whisper "I love you."

oingo boingo

20080830

aos piores tolos (e à mim mesma)

que, sem coragem de encarar covardes problemas, vestem seus rostos de nada com uma ânsia refletora de outras ânsias, deixando seus rostos como numa inversão de lupa, numa lente estreita onde nada silencia naquela aflição de coisa irritantemente invisível: inutilizantes da própria vontade

No fundo, no fundo,

bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

paulo leminski

20080824

Cala a boca pensamento, ou te enfio uma faca.

Homer Simpson

olho de bolha
bolho de olha

alguns objetivos de não pensar

relacionar em vez de falar de relacionamento
não tentar explicar o que não tem explicação
não deixar o relacionamento ficar dúbio:
o relacionamento como objeto falado e como objeto vivo
o relacionamento falado não é o relacionamento vivido

correlacionar para quê?

amiga minha me disse algumas coisas sobre a planta

disse que quando a planta tá ali plantada
ela cresce naturalmente
e a única maneira dela não morrer cedo naturalmente
é ela comer, beber e tomar sol

porque natural só é nascer e morrer
viver não é natural
é conquista constante
como as coisas que comem, bebem e tomam sol

20080821

"não há o que dê errado para um aquariano, há o que se transforme em algo certo" (yuri)

20080819

frouxotudo

tudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxotudo é tão frouxo

virar a página: blupt!

É só hoje que eu penso:

nada é tão difícil assim como diz a poesia
somos fáceis e burros por tentar complicar

20080818

num pedacinho de papel "talvez um dia entendas" com uma flor ou folha qualquer do meio da rua no meio da noite

e saio correndo

descobri o problema:

as pessoas têm que mudar tudo isso
acrescentar, então:
coisas extraordinárias
corridas malucas
finais de efeito

(eu só quero um buquê de brócolis roxo ou de salsinha)

toda vida espero surpresas das coisas
(ou "em todas as coisas, espero surpresas da vida"),
e por isso que eu as tenho
(AS SURPRESAS)
a maior surpresa de todas é acontecerem aquelas coisas que não se esperam:

sempre acontece coisa nenhuma

alguns minutos das meninas

Ao perceber nossa presença, uma das meninas (sendo duas na mesa com os, provavelmente, pais) olha para nós, duas vezes seguidas.

_ Pai! Paaaai! Paaaaaaaaai! - exclama a outra menina

A menina número 1 sai de sua cadeira, caminha até a outra cadeira e volta até a mesma que estava sentada.

A menina número 2 que estava sentada se levanta, empurra sua cadeira para a direita e volta a sentar-se mais próximo da menina número 1. Já era hora e ela começa a comer seu sanduíche. Algumas mastigadas depois, a menina solta o sanduíche e brinca com o brinde-Hello-Kittie. Volta, entretanto, a comer e observa atentamente a Mariana Milis (que estava observando-a primeiramente). Em seguida, vira-se para trás para observar rapidamente um homem sentado. Balança a cadeira para frente e para trás. A menina número 2 cai.

A menina número 1, provável irmã, balança sua Hello Kittie em frente ao olhar da menina número 2. Essa, quando caiu, quase-chorou por meio minuto esperando seu provável pai alertar-lhe que nada de tão ruim havia-lhe acontecido.

_ Pronto, pronto! - disse o pai dando-lhe leves tapas nas costas

As duas meninas, logo que passara a sensação da queda da menina número 2, brincam juntas com a mesma Hello Kittie. A menina número 1 (com suspeitos cinco ou seis anos de idade) volta para sua cadeira. De repente!... a menina número 2 (com suspeitos quatro ou cinco anos de idade), concentradíssima, faz-de-conta ser um cavalo.

Achei um desfecho interessante.

alguns passados foram


só de sonhos
e coisas nubladas



e quando de "passados" falo, quero dizer exatamente que as coisas passadas passam, e que são coisas soltas e juntas ao mesmo tempo, porém independem-se

e também, sobre falar "só", digo a princípio que "só falo", como se fosse uma única coisa, todavia me sobe a cabeça a sílaba só como "estou só"/"estou só de sonhos"

20080817

vida patética

não nos permitimos ser patetas dignos,
quem sabe numa próxima patetice:
batatas com bananas caramelizadas

20080811

AS COISAS SÃO

AS COISAS NÃO PRECISAM DE TI
ELAS SÃO E PRONTO!

AS COISAS SÃO ASSIM: ELAS NÃO PRECISAM
ELAS SÃO E PRONTO!

ELAS SÃO E PRONTO!
........SÃO E PRONTO
........SÃO E PRONTO
........SÃO E PRONTO
........SÃO E PRONTO
........SÃO E PRONTO
........SÃO E PRONTO

UM QUADRADO É UM QUADRADO
...............E PRONTO

UM QUADRADO NÃO PRECISA DE TI!

latejadas

Latejada1: com a tua asinha na mão, como se ela fosse tu: no meu rosto me fazendo respirar: inspirar devagar e expirar mais devagar ainda

Latejada2: quero ouvir a voz que mais me faz fazer inspirar e expirar devagar

Latejada3: como se tudo fosse colorido (e não que não seja): o abraço que vem tão azul, tão macio, tão confortante

Latejada4: a maior segurança de todas: pai, amigo, irmão e calmaria

Latejada5: alegria

Latejada6: distante e querida

Latejada7: novidade indisponível: confusão passageira

Latejdas89: inviáveis por algum tempo

O mundo tá no fiMeu olho tá úmido.

meu olho é úmido
por isso meu olhar é úmido
e eu vejo tudo molhado
molhado molhado

meu olho é úmido
mas não escorrega
quando eu o empurro
ele nem cai pra dentro

um dia desses ele quase caiu dentro da minha cabeça, mas como ele não vale nada dentro da minha cabeça, ele não caiu, mesmo que cair não custava nada, nem uma viagem pra qualquer lugar perto do fim do mundo

azul glugluglgulgulg

eu quero que as amantes palavras me deixem
eu quero um tempo de toda a minha cabeça

eu quero ouvir meu nada no fim da tarde
eu quero não pensar em fingir que parei de pensar

eu quero parar
eu quero parar
eu quero parar
respirar, então

respirar tão azul
tão azuuuuul
eu quero falar glugluglu
eu quero gritar glugluglu

não serve pra nada
deixar de gritar
deixar de falar
e não deixar de pensar

gluglugluglulgulgugluglgulgulgulgulguglguluglggulgulguglugluglgg

20080809

prontoquasefalei

conversar é bom
emagrecer falas
digerir olhares
desviar parágrafos como se fossem saltos duma montanha à outra

um bate-volta de desassossegos e de sossegos
cair e continuar de olho aberto
dar de cara numa parede invisível
ter dor de cabeça e vomitar
banalizar as coisas patéticas como patetas dignos
(dignos de olhares, de contra-falas e de suspiros pesados e densos)

20080808

gel tóxico

(ser tóxico é não parecer ser tóxico)





-TÓXICO

este gel está
de-mais"
me parece................... quase-tóxico

e já é a minha vez((((!

de(ME)e n t o x i c a r também
porque o gel também gruda em mim




tranco a respiração
arroxo
escaldo a pele
rastejo
viro brotoeja




........... e a arma((((?
está sem manual

20080807

um pulo, dois anos, mudanças de rios, nuvens e névoas

a chuva é a nuvem envelhecida
a nuvem é o começo da chuva
a chuva é o alimento do rio
o rio é o fim da nuvem
a névoa é o desmaio da água


a água é gel de nuvem e de névoa

20080806

algumas coisas precisam mudar por dentro, por fome, por céus

hoje foi um dia horrível dentro do meu corpo
: os meus pés estavam molhados e desconfortáveis com todo o cuidado dos meus olhos chuvosos com meu tênis branco
: as minhas mãos estavam tão geladas que pareciam não fazer parte de mim, e roxas e desalongadas
: o meu estômago estava de tristeza e obstáculos sem fim
: as minhas mentiras invadiram até o alto da minha testa, que tinha tanto óleo, tanto
: o meu pescoço era tronco de goiabeira, de saudade
: o meu sonho escorreu outra vez de mim, e com ele todas coisas dele, que são muito mais que minha vida, nelas só falta eu
: o papo foi ficando insuportável
: eu fui perdendo meu corpo dentro da minha cabeça e quando vi, olhei pra trás, pros lados e pra cima, eu não existia mais
: eu sumi de mim e me insuportei mais uma vez

outras vidas

apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego das coisas da vida que são pra sempre mesmo que eu nem lembre delas e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego apego e não desapego

20080805

eu derreteria

se eu tivesse as mãos d'água e delas eu dependesse para andar pois não teria pés nem pernas, eu, sim, derreteria. derreteria ainda mais provavelmente se minha boca fosse d'água, pois sou feita de falas engolidas e delas eu dependo mais do que de meus pés e pernas

mas caso minhas mãos e minha boca fossem d'água congelada e minha casa fosse freezer, eu seria como um hambúrguer frio de soja, mas feito de carne, bem temperado e com muitas esperanças de morrer de velho no congelador, que cuida dele com tanto amor quanto eu cuido da minha caixa de pérolas

algumas coisas têm sonhos nublados no passado
alguns sonhos são de coisas nubladas sem passado
alguns passados foram só de sonhos e coisas nubladas
alguns sonhos são encantados como passados não-nublados
outros encantos nascem de coisas que ainda não nasceram no passado

quando eu morrer eu quero virar água. eu quero um amigo quase-imaginário que invente um jogo com a água do meu corpo e com ela encante meu passado nublado e não-nublado, meu passado que foi e meu passado que ainda não passou pela minha água

20080804

eu prefiro as falas doces:

derretidas e quentes
ou derretidas e frias

algumas coisas ficam fora do lugar

a sombra tá muito comprida pra pisar na grama
a grama é do amor, assim como o hsbc e o turismo

a grama tá muito comprida pra pisar no amor
o céu tem partes que se mexem como algodão

as partes do céu são transportes nublados
os transportes são nuvens do céu do outro mundo

o outro mundo divide o mesmo céu que este mundo
o mundo tem só um céu e o céu tem muitos mundos

os outros mundos não têm hsbc e nem turismo
mas eles poderiam ser tranportados por nuvens

se o hsbc e o turismo estiverem na montanha
eles podem pegar a parada da primeira nuvem

pra primeira volta vou levar um sanduíche
o meu sanduíche vai ser quadrado e de nuvem e de chuva

a chuva é a nuvem envelhecida
a nuvem é o começo da chuva
a chuva é o alimento do rio
o rio é o fim da nuvem
a névoa é o desmaio da água

eu vou comer um sanduíche de nuvem e de chuva
por isso que eu sou um rio de fome

eu não gosto de nuvem fina
eu gosto de nuvem que preencha até os cantinhos

os cantinhos têm o bom-senso de existirem
senão o sanduíche não teria meio

o meio é que interessa na minha fome
meu meio é o meio do meu rio de fome

coma-me fome como um rio de nuvens
afoguei-me na minha fome de chuva

tontura e chá de abacaxi

quero sentir coisas bonitas com calafrios macios
onde a brisa no rosto é cheiro de chocolate quente
e o andar flutuante pede hora pra pensar em nós

por onde vagaremos amanhã?
passaremos por dentro de nós mesmos
como pássaros que respiram suas próprias penas

quando for a vez da minha pele te esquentar
tentarei estar gelada de vento frio
e fingindo frio ficaremos quentes

e não vai ser de amor
vai ser do sol que vem de dentro de nós
porque o sol não tem lugar do lado de fora

(a tontura é cor-de-rosa, quente e doce)

+++++++++++

(o sol é cor-de-rosa, quente e doce)

20080803

desamam vida

des
dddes
conforto imenso

sair
corrr corro
correndo

dessa
coisa ímen
ímeeeen
imensa

que amma
chamaaa
chamam de vida

20080729

quase que vomito um quase-vômito

20080718

guarda-me, chova-me

mes
mo que pra sempre
te
nha um fim físico,
pra sem
pre eu vou ter a tua pele na minha
p
ele,
e o teu olhar no meu olhar
e também
na min
h
a pele, e o m
eu olhar n
a tua pele e a nossa leveza:
de p
assar momentos só d
e olhares, d
e sentir as nossas respirações conversarem n
as nossas peles como nós
conversam
os só
por toques:
suaves
e frios em tons de azul,
mas aconchegantes
em
senti
ment
o quente

20080715

resolvi escrever meu gel nesta teoria

estou grudada em muitas pessoas e cachorros e coisas do mundo
tem gel entre mim e as coisas
o gel não acaba nunca
o gel engole e o gel faz escorregar
mas o gel nunca consegue sumir
e isso que me faz odiar e amar e odiar e amar o gel

o que significa isso?
já dizia eu há longo tempo pensando sobre o gel:
valores! significa valores!
quer saber onde?
está no gel, oras

mas o mais filhadaputa é tirar ou colocar os valores no gel
nãonão
o mais filhadaputa é manter os valores lá

o gel é denso
o gel não é denso
o gel é tenso
o gel não é tenso

quando o gel é denso as coisas ficam estáveis engolidas
quando o gel não é denso as coisas e os valores escorregam
quando o gel é tenso o gel pode ser denso ou pode não ser denso
quando o gel não é tenso o gel é denso ou o gel nem existe
quando o gel não existe as coisas e os valores são livres

não existir faz as coisas serem livres
mas se as coisas não existem significa que o gel está vazio
um gel vazio é um gel morto
mas um gel morto não é um gel que não existe
um gel morto é um gel que escorregou dele próprio ou é um gel que se engoliu

eu não sinto nada

quando tem sentimentos em mim eu não sou eu
os sentimentos são burros
quando eu sinto eu não sou eu
os sentimentos que são eu
quando eu sou burra
eu sinto muito que eu não sinto

20080624

hoje estou dupla

Estou dupla, as coisas estão. Não consigo mais ver, esse é meu problema na essência. Não vejo as coisas na minha frente me dizendo (mas ouço e soluço): não, não, nãodámais! nãodámais! nãodámais! nãodámais!(!!!!!!!!!)

Não estou sabendo para que lado olhar, e ver, e ver e só. Não queria ouvir, mas queria ver. Sentir porranenhuma também, sentir só deixa tudo mais pasto, mais vasto, mais gasto. Quero algo mais ácido, entende? Quero algo ácido e macio. Que seja díver, naquele sentido mais idiota e vivo que a palavra livre. Livre disso/de ti/de mim.

Eu não sei dizer uma só palavra explicável disso que ouço. E ouço o tempo quase inteiro, mas despedaçado, como se o tempo não conseguisse se manter, não tivesse coisa a recorrer pra ficar. E aí que SEI: a coisa! Essa é a que falta. A coisa que segura o tempo junto a todo tempo. Que não o deixe. Que o ame.
Mialimentaram
Miacariciaram
Mialiciaram
Miacostumaram

saltimbancos

20080617

muda amor: de cor

20080610

hoje pensei no amor como se fosse meu cabelo:

pensei que do amor tem que estar sempre cuidando, sempre alisando e paparicando. qualquer coisa do dia-a-dia que incomode meu cabelo - como muito sol, vento ou coisa outra assim - precisa ser compensada com um bom banho de creme, ou uma escovada super apaixonada, para então ele voltar ao normal. ao normal por um dia ou dois, no máximo. passando disso ele já começa a ficar oleoso, grudento, ou o contrário, seco e quebradiço. que nem o amor. que se passa muito tempo sem ter atenção, pode tanto ficar grudento - como um chiclete (ou um pensamento) no cabelo que não quer mais sair, ou pode ficar quebradiço, e quebrar-se em partes/machucar-se. acabar, meu cabelo não acaba não. nem o meu amor. mas, de repente, chega uma hora que ele está tão fraco e cai, ou pede para ser raspado a qualquer custo. nunca tive meu cabelo raspado ou caído. (nem meu amor). tento cuidar dos dois, às vezes com alguns errinhos, mas nada que um s.o.s. (mãe da naiara ou naiara) não resolva.

20080601

eu não existo
insisto


(acabo e existo - paro e insisto)

(a coisa existe escondida em mim, eu escondo a coisa pra insistir nas outras coisas, que juntas não se dão, mas se forçam a acabarem ou a conviverem)

20080528

coisa boa é coisa à toa

20080505

pra que traduzir?

pensamos demais sobre as coisas, e então, vivemos pra tentar decifrá-las ao invés de não tentar nada, e deixá-las acontecer do seu jeito incauto/deu a hora de parar com tanta rotulação das coisas, pra deixar elas serem em paz, oras, sem ter que dar satisfações!

sabe o que é?

CANSEI DE PENSAR NAS COISAS COMO SE ELAS
JÁ NÃO FOSSEM SEM EU PENSAR

(porque eu não paro de pensar em separá-las e dividi-las por cores, formatos, tamanhos, gostos, texturas, cheiros, grau-de-compatibilidade, temperatura, acidez, lucidez, palidez, grau-de-desmanchar, facilidade/dificuldade-de-falecer,,,,,,,,)

nomenenhum pra coisanenhuma

as coisas são assim mesmo:

paralelas a elas mesmas. as próprias coisas são mais de uma. as coisas são muito "tudo junto" pras pessoas tentarem, o tempo todo, organizar em partes. porque a verdade é que as coisas estão unidas por coisa alguma/coisa nenhuma. e esse nenhum as mistura, mesmo sem existir. porque as coisas que não existem não deixam de ser coisas. em algum lugar elas estão: no meio das coisas todas. paralelas a elas mesmas. as próprias coisas são mais de uma. as coisas são muito "tudo junto" pras pessoas tentarem, o tempo todo, organizar em partes. porque a verdade é que as coisas estão unidas por coisa alguma/coisa nenhuma. e esse nenhum as mistura, mesmo sem existir. porque as coisas que não existem não deixam de ser coisas. em algum lugar elas estão: no meio das coisas todas. paralelas a elas mesmas. as próprias coisas são mais de uma. as coisas são muito "tudo junto" pras pessoas tentarem, o tempo todo, organizar em partes. porque a verdade é que as coisas estão unidas por coisa alguma/coisa nenhuma. e esse nenhum as mistura, mesmo sem existir. porque as coisas que não existem não deixam de ser coisas. em algum lugar elas estão: no meio das coisas todas. paralelas a elas mesmas. as próprias coisas são mais de uma. as coisas são muito "tudo junto" pras pessoas tentarem, o tempo todo, organizar em partes. porque a verdade é que as coisas estão unidas por coisa alguma/coisa nenhuma. e esse nenhum as mistura, mesmo sem existir. porque as coisas que não existem não deixam de ser coisas. em algum lugar elas estão: no meio das coisas todas. paralelas a elas mesmas. as próprias coisas são mais de uma. as coisas são muito "tudo junto" pras pessoas tentarem, o tempo todo, organizar em partes. porque a verdade é que as coisas estão unidas por coisa alguma/coisa nenhuma. e esse nenhum as mistura, mesmo sem existir. porque as coisas que não existem não deixam de ser coisas. em algum lugar elas estão: no meio das coisas todas.

mais uma minha coisanenhuma: nomenenhum
(deu vontade de ver texto grande, de vários textos pequenos, e iguais, mas quem sabe, lidos de outras formas, diferentes)

20080406

Alfinetei a minha cabeça de grama-verde-clara pra ver se acerto em algum pensamento.

Perdi muitas das gentilezas que me formavam. Perdi essa parte de mim, mas não por isso a esqueci.
Ando de um lado pro outro, olho de cima pra baixo, e, em movimentos circulares, eu enxergo gentilezas nas coisas.
Porque o pó, por exemplo, tem a gentileza de não voar em mim. A tv é gentil quando me deixa escolher ligá-la ou não. A geladeira gela tudo pra mim, só pra eu não comer coisa estragada. Sem falar das coisas que são gentis só por existir, como a música sleep da Kimya Dawson.
Que motivos tenho eu pra perder minhas gentilezas? As gentilezas daqui tenho que levar pra fora comigo. Grosserias cansam. Qualquer grosseria, mesmo mínima, precisa me fazer quieta.

20080320

colecionadora de faltas

só o que não falta é faltar coisa

20080318

casquinha de pele

a minha casquinha de pele não está nas coisas propriamente ditas: na minha pele, mas sim nas outras coisas: nas coisas que eu toco e nas coisas que me tocam. não me interessa a minha casquinha de pele em mim, mas sim a minha casquinha de pele diante das outras coisas. não é a morte da casquinha de pele. é que a minha casquinha que está em ti é a tal coisa além do limite da minha pele: está além de mim e ao mesmo tempo é minha parte em fatia: é tão indispensável para mim quanto a minha pele inteira, pois se o mais plausível é me ter em pele, melhor ainda é me ter em fatias nas coisas todas.

20080316

sei da falha a fala nua

o que não faz sentido é ser falta. não quero mais nada que seja falta. não me preencho de outras faltas, pois até as minhas já não me fazem mais faltar. só quero dizer que tanta falta assim junta acaba por fazer os vazios cheios de faltas. quero dizer: as faltas falham. eu explico: é que uma vez eu gostei tanto de faltar em mim que acumulei essas coisas nuas (as faltas) e vazias (as faltas). e tantas acumulações nuas, vazias e falhas faltaram em mim coisas cheias. uma falta cheia é quase que me encher de vazio. juro que era mais fácil. mesmo os vomitando, vazios eram só vazios. agora eu tento vomitar cheio e não consigo. porque é um cheio que não me falha.

20080224

para voar:

Quando senti o céu aqui, logo pensei em tocá-lo, como se fosse íntimo meu. Foi a primeira vez que eu o peguei nas mãos, e para isso não precisei nem ficar nas pontas dos pés (como eu costumo fazer com coisas íntimas). Quase o desmanchei de tanto apertá-lo. E ele ficou com partes tão pequenas que o perdi por pouco menos de um ano (no nosso tempo, não no dele).

Eu o achei por acaso, quando sem respirar, eu pisquei. Um flash de céu. Azulzinho, como era naquele tempo. Ele sumiu assim que abri meus olhos e vi minhas mãos. Ainda acho que foi ele quem as colocou ali: a um palmo meu do meu rosto.

Eu virei a minha mão direita tão devagar na frente dos meus olhos que consegui percebê-la em soma, não em unidade. A minha mão direita é tanta coisa. Eu tive vontade de apertá-la bem forte para unir tudo sem nada de ar. E eu fiz.

Quando abri minha mão, eu a senti mais densa. Sem ar algum, eu pisquei aflita: seguidas vezes e sem parar para respirar. Piscando assim, minha mão foi ficando leve, ainda eu a sentia densa, mas agora mais leve que as minhas pálpebras. Tão devagar e tão leve, ela flutuou na minha vida. A cada piscada, um detalhe na minha mão respirava. Como se cada detalhe nela fosse uma coisa do mundo. E todas as coisas juntas encostaram no céu por um segundo - foi o último segundo que eu pisquei -. Comecei a piscar de novo, sem parar, sem respirar, e, com a minha mão no céu, fui tão feliz. Apertei o céu, como se fosse só meu. Sem que eu pudesse me mexer, a minha mão abriu, e soltou o céu. Foi quando encostei pela última vez minha mão nele. E bastou para ter aquela sensação dentro de mim, como se eu o tivesse engolido junto as coisas do meu mundo (afinal, meu mundo precisa de um céu).

Eu não o engoli, por fim, mas ele estava ali, em sensação, na minha mão. E, se eu quiser apertá-lo com força, é só parar de respirar e começar a piscar.

20080210

Como se Paula matasse Anna.

A Paula fala mais alto por ficar nesse corpo de Anna. Ela é transparente, sumindo com a Anna que é tão real e opaca.

Que de Anna eu já soube muito, por isso quero desta vez ser Paula por muito mais tempo que Anna, e até deixar Paula pra sempre viva; não como Anna, que só aparece pra equilibrar Paula.

A Paula é íntima. A Anna é Anna e só. A Paula é muito mais que Anna Paula, porque é só Paula, que não mede como Anna, sobre o que ser. A Anna é tão detalhista que enjoa dela mesma. A Anna não tem alma (a Anna tem úlcera).
A alma da Anna Paula é a Paula.

E a Alícia é um excesso de Paula. Como se Paula matasse Anna. Ou como se Anna virasse Paula também. Em vez de Anna Paula: Paula Paula: Alícia!

A Anna é coerente e por isso não entende a vida: que não é coerente. A Paula é a Paula. E a Alícia é incoerente.

Fui primeiro só Paula: quando nasci: quando pequena: quando cresci pela primeira vez e pensei: "não posso ser Paula com pessoas desconhecidas": a Anna analisou tudo e escondeu Paula por ser tão mais fácil e coerente ser só Anna (pessoa nenhuma se conhece ao todo, porque pessoas só são partes delas).

Passou um tempo de Anna. A Paula gritou, e logo Alícia. E então Alícia virou Anna Paula de novo.

20080130

: são as pessoas

Tem dias que eu imagino coisas e sinto ser verdade. Eu falo comigo mesma sobre o que está acontecendo, porque não posso falar com mais ninguém sobre o que só acontece pra mim. São contextos, inúmeros. É medo. Assim: eu imagino (sem ser racional, eu sinto) contextos e dou vários fechamentos, que na verdade não fecham, possibilitam outros/eu choro/eu me sinto a pessoa mais feliz do mundo - naquela sensação de névoa(de melhor-coisa-do-mundo -/eu os vivo (só comigo) como se fossem verdade, para, então, não sentir necessidade de viver com outras pessoas. E, então, o meu medo: as outras pessoas. Não o que elas vão pensar sobre os meus contextos, mas o medo de elas saberem que tudo está misturado: o que é real e o que é de voltar atrás pra viver de novo de forma diferente. Meu medo é de elas não conseguirem, e então, eu acabar perdendo-as em alguma realidade que era só para experimentar.

As pessoas são difíceis. Elas são a maior barreira da minha vida. Todas (não as barreiras - as pessoas).

Eu não as sei, ao todo. Eu nem sei eu, ao todo.

É a minha vontade de viver a mesma coisa de diferentes maneiras. Eu preciso ser triste também, por exemplo. Mas as barreiras (as pessoas) vão me achar (não me importa o que elas vão achar, mas a conseqüência disso) uma chata se eu inventar tristeza só pra chorar bonito. E, por conseqüência, eu as perderia. E, perdendo as barreiras da minha vida - da minha pessoa -, eu não teria mais o prazer de ter medo. E, então, o prazer de viver as coisas duplamente, triplamente (...) também seria perdido.

Hoje eu acordei perdida. Confusa do que é realidade e do que não é.

Eu vivi duplamente com uma pessoa. Eu quase a perdi. Foram testes não conscientes. Hoje, eu percebo tudo no sentido de invenções de experimentar. Foi muita coragem enfrentar assim o medo, como se ele não tivesse o poder de tirar essa pessoa de mim. E dessa vez ele não teve.

Tenho medo também (da conseqüência de perder as pessoas) de escolher a pior (no sentido de qualidade de ser pior, que dependendo da nececessidade da situação, pode ser uma coisa boa) alternativa para ser experiência da vida real (que está amalgamada com as minhas imaginações, por isso a confusão da minha cabeça).

Meu coração quer saltar de mim.

20080123

aquela noite

era o barulho da geladeira
o convite recusado
e a saudade do namorado
*NÃO BRINQUE COM ANIMAIS AQUÁTICOS DESCONHECIDOS

20080114

eu deito para amarrar o meu cabelo,,,,

pausa tudo e sente a mosca

Apóia o pescoço no meu pé, sente a mosca andando sobre o corpo, e me olha, e vira a cabeça, e vira pro outro lado, e me olha, e assim faz até abaixar o pescoço e deitar, jogando-se no chão como quem compreende tudo neste momento de ser pisada pela mosca: a tua mosca te faz massagem, e ela, mesmo suja, conforta-te. Coisa imunda: não te preocupas com as coisas a tua volta, e caminha nelas, amaciando tua vontade de ter teus pés em coisa viva, quente e rosada. Não suspiras e não arrotas como farias em felicidade, não pensas em nada, pausas a tua respiração para só sentir a mosca neste intervalo tão teu, tão único.