20120131

Se o mundo acabar quando eu estiver dormindo,
fico pra sempre presa no meu sonho?
AS PALAVRAS ME PALAVRAM.

20120121

quase-vômito

não sou lá muito de polêmica helênica barbárica ou qualquer afronta às quase bandeiras ou qualquer bandeira às quase afrontas, mas tenho ódio elefântico de preconceito sem sentido de gente das cavernas cibernéticas das badernas noturnas diurnas viróticas das bobagens de critérios idiotizáveis insuportáveis inaceitáveis em naves em níveis quaisquer que forem quaisquer que vivam quaisquer que queiram ser presentes ausentes ou outra coisa bendita maldita finita restrita ou cabrita erudita. não me interessam pessoas inoportunas parentes serpentes e vertentes cujo expoente crente de sabedoria avisa náuseas cerebélicas sérias de asco noturno a longa distância. sem mais, menos sono sino tino ou regalia frenética involuntária patética de palavras lúgubres insalubre cuspe das duas horas.

20120114

Novelas, saladas e jornais de papel, ando meio cheia de tudo, seja barata, batata ou revista, pilha de livro ou prato de comida, ando meio vazia de tudo, tentando encher com chuva e suco de chuvisco.

20120103

até que a mordida seja passada adiante, nada restará ao desgaste provocado pela ventania que, simultaneamente aos pensamentos arredondados dos solstícios, aborrece as redundâncias gramaticais: atinge-as de modo que todos os pássaros avoados, assim como os gatos que adormecem com convicção sobre os parapeitos, silenciam por meses a fio, a plano e a volume. queridos salamaleques dos meios-dias, margaridas, floras e letícias: todos convocados a esclarecer os fatos que não os fazem abrir os olhos, de tanto que acontece por baixo das pálpebras: oceanos transbordam pequenas coisas que não suas águas, humanos falam alguns lírios que não palavras, gatos andam em círculos que nem cachorros que apertam os olhos com força, vírgulas vivem juntas para se fazer de reticências, joões-de-barro sentam nas janelas, fabricantes de algodão, de pão sírio ou de ilustrações ilustres estupendas palpitantes translúcidas faiscantes pelúcias ou plastificantes são gratos pela sequência de chuvas. vento-chuva-vento-chuva. como ponto-e-vírgula: vírgula-vírgula-vírgula; ou gárgula: gárgula-gárgula-gárgula.

20111127

O sigilo é feito de gis e óleo.

Ser íngreme não presta serviço. Bastonetes não visam crédito. Incertezas só sobrevivem em tom de desmaio. Sabonetes se irritam facilmente com cochilos. Grilos pulam em falso. Piscas-piscas não são projetados pro plural. A língua não parece ser inanimada. Existar é o êxito de existir. Quem toma nota é anotado por dentro. Quando olho pro obscuro enxergo minha vez de dormir. Quando durmo estou segura. Tem gente que usa o liquidificador depois da uma hora da manhã. O sereno não faz bem pro estômago. A mágica só existe pra quem arrisca. O mágico não existe. Minha voz demora a ficar madura. Algumas pessoas falam tão submersas que mal conseguem abrir a boca. Outras pessoas inflam e não falam. Faz tempo que preciso de mais dedos pra contar as pessoas. Não me demoro em sonhar.
Me lembro bem que ia pensar em algo. Lembrei da grama, da ética e da gramática. Esqueci alguma coisa. Era o ritmo de algo. Era o algoritmo.
Menino de sete cabeças,
bicho de duas palavras,
quem verbaliza a centopéia,
ondula o mar 100%.
se não me falha a memória, a memória me falha
labuta biruta, permuta batuta
biruta permuta, batata palito
banana bonita, matuta matina
matina labuta, biruta batina
permuta nanica, banana menina
latrina polida, fina felina

f é coisa de vento

Uns falam,
uns quase-falam,
outros desfalam
pros que desfalecem.

Um chão que desordena o que eu piso.

O piso sorrateiro em lua nova, em prosa síria. Síria de pão, de lânguida chimia: do ovo ou da avó; da vida ou da viúva; do vidro que se esmiuça contra o desatento da cachorridade. Cachorridade é a humanidade, só que do cachorro. Nem todo homem é cachorro, evidentemente. Tem aqueles que só pisam, que passam a vida pisando. Que pisam a vida passando e tudo o mais. Tem cachorro que vaia, tem cachorro que vai. Tem tudo que é cachorro no mundo. Tem muito mundo: tem mundo miúdo; tem menta mimada e molho amado. Tem molhado e tem milhado. Tem tudo que é coisa. Só pera e espera, só para e repara. Só somente só. Lá somente lá. Si somente si. Dó semente dó.
uns morrem de mosquito,
outros de sol

Coisas de Mão

Eu só queria ter filho pra poder ter neto. Pra aproximar, assim, a minha infância de outra infância distante. Distante em termos redondos, apalpáveis, rítmicos de formas. Essa coisa de ouvir as formas e de pegar o som que vem de dentro delas e jogar no lago. Qual o som da forma no lago? É o som do lago mais o ritmo da mão. Da mão na coisa jogada. A forma da mão, a mão informa, a mãe da fôrma. Quem tem mão, tem mãe que tem forma. Quem informa tem mãe que tem mão. Quem é mãe tem forma de mão. De mão que joga coisas no lago. Coisas que têm forma de som. Coisas que são, que som, que sim. Coisas assim, não.

20111114

inventania

20111018

Amontoar-se em velhas náuseas, porções de seda, porções de meias palavras; recolher-se em suspensão, flutuar, voar e já pro chão; pra chama, pra lama, pro vão; plurar-se de sílabas tônicas, sílabas mônicas, cascão; vestir-se de salitre, de sulfite, de sagacidade que insiste;
moer.

quem2

Quem nunca quis um Manticora, aquele que tem três fileiras de dentes, que come gente e fala trovejante? Que tem cara de homem, olhos azuis e cauda espinhenta fulgurante? Quem sempre teve um homem com cara de homem, com dentes de homem e com fala de homem, quem sempre quis um Manticora? Quem nunca quis chuva de sangue entre as folhagens, por flechas, por voragem? Quem vive de passagem e aprecia sem pressa com coragem, uma faísca da criatura Manticora?

quem

Quem não morre não preguiça, não cereja, não percorre;
quem não morre não vive, quem não tive, quem não chove;
quem não fica não volta, quem não solta o que não tem;
quem não teme não rima, quem ensina, quem inclina;
quem sorri enquanto chora, quem mora, quem neblina;
quem rotina, quem teima, quem morfina, queima.

20110930

ctdn

~ preciso usar menos cola
~ menos cola, miss coala

tipos de cinza:

sem cinza
sim cinza

20110908

poemnós

ERA MENOS
ERAM ENOS
ARAME NÓS

ética do objeto

objética

20110904

cápsulas de lapsos

20110704

SONO SOON
A gente tinha que dar um jeito de guardar um pouco de inverno pra usar no verão e um pouco de verão pra usar no inverno, né? Assim, tudo grátis, só na coleção mesmo, pra usar tipo perfume.... vai um verãozinho na nuca aí?

20110628

quanto mais tenho sono, mas me flutuam os pensamentos

20110622

nem tudo são devires-flor

20110621

dúvida diária

~ Que dia é hoje?
~ Ontem de amanhã.

20110619

O único problema de sumir por uns tempos é que sempre chega a hora de dessumir.

emoções

.
...
.
..
.
. . .. . ... ....... - -- ----- --
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.
...
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.
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l.
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"Os lápis são como o coração: eles quebram por dentro."

Pedro Brucznitski

20110617

Sombrinhas e girassóis,
gatos peludos e jibóias,
lebres de algodão-doce,
sapatos e carolinas,
anilinas!
lamparinas!
bailarinas!
me tragam férias nas filipinas!

i > i (inércia)

i > ï (mitose)
i > î (timidez)
i > ì (torcicolo)
dépocais: diferentes épocas iguais
fécopais: figerentis écopas equais

20110615

Adotando Abandono

Lembrei ainda a pouco a coisa mais triste que me aconteceu nos últimos tempos: sonhei que tinha ganhado um filhote de cachorro, coisa mais querida, peluda e espevitada, que atendia pelo nome de "Abandono".
rolor solos

20110614

Nem todos os versos são perfeitos,
às vezes a rima tanto se embaralha,
que toda a beleza tende à falha.
Mas pra todos os (d)efeitos,
sobram sempre os sentidos rarefeitos.

20110609

ilestras

palustres

i knew it

the knee wit

20110602

Chorar não adianta,

reclamar não adianta,
sair de casa não adianta.

Andar não adianta.
A de anta.

20110531

tristeza é mato

20110528

Miúdos ou miados

Frente-a-frente ou verso-a-verso, inversamente frenéticos, freneticamente inversos, calculavam os boçais, esboçavam seus calcanhares, migravam de pálpebra-em-pálpebra, apalpavam migalhas, minúcias e maçãs-do-rosto.

20110510

Sorriso sem rosto ~ Parte 1

O mundo estava estranhamente amalgamado e sorridente. Posso afirmar com convicção que havia gente com sorriso quádruplo e até quíntuplo, mesmo durante um dia árduo de trabalho em concreto. Eram essas as pessoas mais corcundas da cidade, as que mais variavam seus sorrisos. Carregavam bolsas enormes e de formas desengonçadas, como se guardassem coisas vivas e movediças dentro delas.

Essa cidade era esquisita, as pessoas eram esguias e as plantas de um verde saturadíssimo. Ainda assim, nada era comparável ao sorriso das pessoas, nas bocas só se via o 100% white e 0% others!(?) O polimento era de cegar pela segunda vez até quem já era cego, o brilho era o próprio sol da boca, a arcada perfeitinha, como prédios construídos com planejamento minucioso, um cuidado com o hálito, com a embocadura, com as diferentes formas de sorrir. Em cada detalhe, um desvio de pensamento pro próprio ato de sorrir. As pessoas, certamente, não sorriam mais os sentimentos, mas sim a própria boca, o próprio sorriso, como se a ação de sorrir fosse apenas para si própria, sorrir para continuar sorrindo.

"Brechó de sorrisos", li no mural da esquina, entre a padaria e o prédio em construção. Brechó de sorrisos? Fui checar do que se tratava e fiquei boquiaberta:

~ Boa tarde, vocês vendem sorrisos usados aqui, é isso mesmo?

Uma moça esguia com um contraste incrível entre sua pele e seu cabelo, mas com um sorriso meia-boca, me respondeu com uma voz aveludada:

~ Geralmente temos em estoque sorrisos usados e semi-novos, mas vez ou outra aparece um sorriso construído à mão, com grande valor emocional agregado, feito especialmente pensado em algum estilo super-próprio, sabe. Sem falar dos sorrisos vintages, nossa! Esses costumam aparecer e em segundos serem vendidos, por parecerem mais naturais, já que na época dos nossos avós a brancura era diferente, tinha todo um charme natural, não é mesmo?

Eu, boquiaberta já em nível avançado, tentando disfarçar meu incisivo lateral direito levemente encavalado com o canino, sorri meio de lado, inevitavelmente expressando um pouco de sarcasmo:

~ Quer dizer, então, que as pessoas compram sorrisos? E os estocam? Trocam os dito-cujos mediante a diferentes ocasiões? É isso mesmo? Desde quand ~ momento em que fui interrompida por um sorriso gigante, hipnotizador e extremamente publicitário.

Fiquei pasma, desmaiei e acordei horas depois numa sala super decorada, com objetos lindos, tão brilhantes e polidos quanto o sorriso do moço que veio me perguntar como eu estava me sentindo.

~ Moça? Moça?!

Por um momento achei que tinha sonhado com o brechó, até que vi um senhor no balcão tentando surpreender uma enfermeira, trocando rapidamente de sorriso, de um neutro amarelado de visitação de parentes para um sorriso de triângulo escaleno, de canto de boca, daqueles sorrisos meio sem noção mesmo...

~ Moça? Você está me ouvindo? Fale alguma coisa, por favor!

~ Olá ~ respondi sem muita energia ~ só estou um pouco pasma a respeito de onde as coisas foram parar.

~ Que coisas?

~ As pessoas.

~ Mas as pessoas não param.

Fiquei pensativa com essa última afirmação dele, tentei forçar um sorriso de boca fechada mas não consegui, então saí devagar reparando em como aquele hospital era parecido com qualquer coisa, menos com um hospital. Talvez, de fato, nem o fosse, talvez fosse apenas um lugar onde iam parar os visitantes pasmos como eu, ou talvez fosse a fábrica de sorrisos, ou de implantes, ou de qualquer coisa que eu ainda não estava preparada para saber, mas continuei pensando.

20110508

das coisas fofas-horríveis:

1 mofo em estágio "peludinho"
2 bolo de pó (sem cabelos)
O que eu tenho pra dizer sobre as pessoas, nem as pessoas.

20110416

Sinceridade às primeiras vezes

Ainda que eu admire situações nebulosas e tenha gosto sério pela própria nuvem, não posso omitir meu desgosto pelas primeiras vezes. Definitivamente, mesmo que isto seja um dia reverso, as premissas me deliram. Como se estivesse no limite, no canto mais pontiagudo do meu pensamento, quase na alteridade; numa insegurança de cair no espaço que me desprende, na desordem ou na ordem massiva do mundo. Uma vertigem, duas, três, quatro... Às segundas vezes, terceiras, quartas, etc., todo o resto, bom e mau, sem válvula de escape. À elas, a minha liberdade de descontrole, de estrabismo e de inquietação. De astigmatismo duvidoso e preguiça, inércia, apatia, indiferença, às primeiras. São essas que não me preenchem; e permaneço muda, ausente. Até às sucessivas.

20110402

aos dias secretos

ser segredo, hoje cedo. murmurar penumbra atrás da porta até que a curta ladainha fique morta. pormenores e por ronronares, pratico lenços, lisuras e fatias em paladares. calcanhares são os teus macios. aos ares, aos pares, aos mares. restando pular em ruídos fiados, desmanchados e estremecidos. são as coisas de tanta fuga, de tanto rijo. viajar a dissipada situação de um passado inóspito. sem acesso algáceo que oscile ao cetáceo. sem peso, mar ou fôrma. sem fissuras nem salpicos ou tonturas. são as coisas assiduamente aborrecidas, precisamente desprovidas, fugazmente corrompidas. são as tímidas trombetas, os estrondos que. são as coisas secretas das manhãs, os sonhos repousados no cinza dos dias e nas não-memórias espontâneas.

20110223

se eu falasse, viria uma palavra desossada
que eu jogaria no teu colo

joão gilberto noll
o que meu cabelo tem de liso eu tenho de enrolada

20110129

ou antônimo

– entrar em parafuso é uma expressão bonita, assim como dar com a língua nos dentes ou falar pelos cotovelos e chover no molhado.
– mas quero ver algum anônimo que dê conta!
– ou palavra.

20110128

isso não é vida
é vinheta

20110125

dormir e acordar em 3 passos:

1 desenhar uma linha até atingir o sono
2 sonhar com o ponto de chegada
3 acordar para o próximo percurso
uma coisa: duas

20110119

~~ vamo pra praia logo que senão fica muito tarde
~~ que horas que eles fecham a praia?

Estou farta de trajes!

Bastam de canivetes, abotoaduras e tímidas barbelas! Que seja lançado ao precipício todo suplício de estar sobre o ser; soltar lacres e vendas! Malditas botelhas e sucupiras seguidamente mal-humoradas. Sorrateiro colibri se faz de bisturi na sombrada da noite. Embora não saiba, não caiba, não sabiá. Longitude no auge da juventude. Destroços horrendos capazes de labutar sob quaisquer pardas garças. Abutre nascido de polímero rebarbado e retalhado para re-uso. Significado de insignificância: insignificado: uma bagatela de moela. Substância da ignorância: insubstância: um brilho no espartilho.

or... or

nunca mais tinha ficado com vontade de inventar, nunca mais tinha ficado acordada de madrugada. disseram-me ser saudável viver sem diárias invenções. mas esqueci de perguntar: saudável pra quem?

20101223

primeiros pensamentos para 2011

~~ Quem diria que engolir em vermelho faz cuspir em prédios, hein?
~~ Em prédios, balões e cortinas, devo te esclarecer.
~~ Mas antes é preciso resguardar laterais e diagonais.
~~ Semelhante a lentilha agridoce?
~~ Exatamente dentro da pirâmide de vento leste.
~~ Você só pode estar de cabeleira pra dilatar uma coisa dessas.

[momento de silício]

~~ Que solidão de cobaia em águas mornas, parece até que somos instrumentistas!

[momento sulfúrico]

~~ O que mesmo eu devia vislumbrar pela estrada fractuosa?
~~ Eu saberia se a cabeça da cama houvesse.
~~ Confesse!
~~ Pois chá! Não mais me preocupo com os zunidos de iodo.
~~ Lacunais-nos enquanto há tempo.
~~ Sorrateiramente?
~~ Desconfio que pirilampos e lamparinas sabem o que fazer.

[mistura]

~~ A hora está próxima, ouço muito bem os pontos cardeais.
~~ Não me respondeste, exuberante te passo de volta os travessões.
~~ Fato é que quero os travesseiros ou uma bebida que uiva em latim.
~~ Morres e não invejas tudo... ou seria invejas tudo e não morres?
~~ Pois saiba que morro de sofreguidão ao pensar nos laticínios.

20101220

pensamento sem critério:

1 tudo suporta
2 nada suporta

20101213

"Algo me diz que" - pensa o homem até ser interrompido por uma nuvem com outro pensamento: "Não fui eu que disse" - retruca uma das cadeiras

20101210

Jogatina

Como saladas e saladas de palavras de nomes de palavras de saladas. De lado de frente subentende salientes palavras e letras de baralho. Embaralho paradas almofadas de nomes de doces. De doces nomes azedos com farinha com óleo com medos com panos com pingos de baixos prelúdios escombros de sombras. Destroços, desfecho, embaraço. Embaço. Vestígios e cacarecos. Paparicos dentro de paparicos. Trabalhuras e sérios mistérios. Categórico estatístico magnífico germânico e sintético. Cético. Assoalho arábico e púdico. Específico histórico gástrico de névoa em bico de ave cor-de-pele. Cor-de-pena de pele. Pena de pele pena pelo pene. Pelada de cor de pena-em-pena de pele-em-pele. Ser de leve algo astuto rápido movediço e nítido metido em falsificar rubrica em pele de preso no papel pele-de-ovo ou pena. Presídio.

Joaquim de sexta-feira

Estava andando pela Beira-mar na parte onde não tem mar. Nem sal, nem areia. Apenas carros. E pessoas com cachorros ou bicicletas. E cachorros perdidos. O cachorro perdido era meu. Foi meu. Foi e não foi. É que achei o cachorro perdido e podia simplesmente não devolver. Atendia pelo nome de Joaquim. Era marrom e dócil. Me apeguei tanto ao cachorro que não quis recompensa. Mesmo sabendo que Joaquim podia ajudar a pagar a conta de luz desse mês. Afinal de contas é natal e tive que gastar o dinheiro com meu amigo secreto. Joaquim me olhou como se fosse um gato de botas. Mas Joaquim é um salsicha sem botas. Telefonei para o dono de Joaquim, mesmo sabendo que Joaquim não gostava do fato de ter um dono. Por isso perguntei ao telefone pelo seu "amigo". Não foi à toa que, enquanto eu conversava com o amigo, Joaquim me mostrava um meio-sorriso. Combinei um encontro com o amigo em seguida. Mas foi difícil pra mim. Podia ficar com Joaquim pro resto da vida. Marrom, gentil e salsicha sem botas. O amigo de Joaquim ficou muito feliz, chegou a insistir na recompensa. E eu sou lá de querer recompensa por encontrar um amigo perdido numa Beira-mar cheia de carros? O amigo de Joaquim me convidou pra outro café depois de ver o quanto Joaquim simpatizou comigo. Não pude negar, ele era bonito e gentil como o cachorro. Só que não era salsicha. Mas também não usava botas e era quase marrom.

Vem

Parar no meio da prosa aos poucos. Bem aos pouquinhos. Uma gota de pouco, um pouco de gota de pouca, uma gota de pouca gota de pouco-em-pouco de pouca-em-pouca gota. Uma pouca. Bem às pouquinhas. Em boca. Na bocadura de poucas gotas. Na bocadura de gelo. Na contra-bocadura. Na boca-mole. Na boca de pouca-mole. Na gota mole. Nole-nole.

Surtar sob o lençol rispidamente. Surtar sobre o lençol calmamente. Respirando pesado, muito ar em pouco espaço. Respirando leve, pouco ar em muito espaço. Respirando espaço, vácuo.

Longas pernas de metal. Fora do corpo, outro corpo.

Calúnia invertida. Inverno. O que era meu, teu. Inerte.

Sonhai-vos uns com os outros como eu vos sonhei.

Vento.

20101125

2h10 parte dois/post-conversa pro yuri brah

Só porque um dia teve parte um./Resolvi o problema.

particular

– Quanto mais particular é a coisa, mais ela se multiplica. Imagine um problema qualquer. Agora cinco pessoas pensando juntas. Agora cinco pessoas pensando separadas sem nunca terem pensado juntas. Somamos cinco problemas.
– Mas cinco pessoas tem um problema sem solução e cinco pessoas separadas tem cinco soluções.
– É só beber três goles d'água de cabeça pra baixo.
poema não põe mesa
nem mesa põe poema
e sobremesa?

LUTO

– Luta por quê?
– Luto porque alguém morreu.
– Ué, mas luta depois que morre? Sempre achei que lutasse antes e morria depois...

20101120

coração sem fundo:

1 nada comporta
2 tudo comporta

20101118

esse texto devia continuar, mas me deu sono e não confio em mim pra continuar depois, então, isso é tudo até não ser mais

Vou fazer o possível para que saibas o que eu não irei te dizer. Mas isso pode demorar algum tempo, talvez até alguns anos. Porque quando a gente vai envelhecendo, as coisas vão sendo contadas em anos, não mais em dias ou semanas. Tem uma curiosidade que lateja toda vez que ouço o teu nome sem ser em ti, mas isso não acontece de fato quando é em ti. Acho que nesse caso quem lateja és tu. É? Posso te dizer que tenho sonhado contigo e também que te misturo com outras pessoas algumas vezes. Isso acontece aleatoriamente e eu até gosto. Embolo um monte de sentimento diferente e sonho. Coisa de quem não tem mais o que sonhar mesmo. É que na desordem e na demora da vida, os acontecimentos vão sendo assim e se acumulam na memória. Montanhas e alpes. Sorvetes de creme. Não acredito que eu não dê conta de te fazer saber, mesmo assim, em segredo novamente. É aos poucos que o vento bate no rosto, vento sul serve só pra levantar a saia e deixar a gente encabulada. Quis dizer que vento sul não bate forte no rosto como bate nas árvores e nos telhados. Isso me lembra uma vez em que alguém dessa mistura dos meus sonhos me protegia do vento e das telhas que voavam. E nem vento sul era. Achei que ia morrer, então acordei. Morri pro sonho. Eu não estava muito ocupada, podia muito bem ter sobrevivido. Mas tu acordou comigo, então tudo bem. Ficamos desocupados e desventados sob o início do dia. Tomamos café, conversamos e acabamos numa competição de quem consegue deixar o pão cair com a manteiga pra cima. Isso no prato, pra poder comer o pão depois. Mesmo com a tua insistência que a regra dos 3 segundos valia alguma coisa nesse jogo. Depois de algumas risadas e comentários comprometedores, nos separamos por algum tempo que não consigo contar no calendário. Talvez tu consigas. Quanto a mim, guardo o meu sorriso mais bobo e tímido pra quando eu pegar no sono e te ver de novo. Ainda que um pouco misturado com meio mundo, adoro os teus talvez mais ou menos não sei quem sabe e agora. Mesmo que isso não seja propriamente teu. Acho mesmo que não é, mas quem se importa? O que eu posso querer de ti se não os outros? Aí que está a graciosidade da coisa, a gente pode inventar as pessoas dentro das pessoas e depois acorda e passa o tempo até voltar a ficar com sono. O sono enquanto desfoque do passa-tempo quero dizer, não que alguém precise dormir pra isso. Aliás, a maior parte das misturas dentro da cabeça se passam sob um cafuné ou sob uma distração no meio da reunião. Ou sob o almoço mais bem preparado e temperado. Ou ainda sob a sobremesa sob o sol sob o guarda-sol. Ou sob os óculos-escuros. Ou sob o chão, pra quem mora em apartamento como eu. Ou sob as pessoas que dormem, pra aproveitar a mesma névoa e evitar mais um preparo pra desfoque. De qualquer maneira, de qualquer maneira.

20101117

das gentes que eu odeio:

gente que é desorganizada demais, que é desorganizada de menos, que quer chocar a sociedade, que nunca estuda e se acha inteligente, que é inteligente mas nunca estuda, que tem convicções sobre tudo, que não tem convicção alguma, que fala muito e faz pouco, que fala muito, que faz cara feia pra qualquer crítica, que faz cara feia, que critica tudo, que está sempre de mau humor, que está sempre de bom humor, gente que eu amo demais.

20101110

mudou-se o mundo

Até então o mundo era cegueta
e as pessoas dividiam sua única gaveta
por não enxergarem as meias encardidas.
Mas hoje não é preciso nem umas mordidas
pra tirar das barrigas a borboleta.

20101106










(se o meu pensamento fosse mudo
tudo seria tão mais minimal)
– Quem tem sono não tem jeito.
– E quem tem jeito não tem sono, lembro disso.
– Isto não é uma mão, é uma peça... Eu não tenho estômago, tenho um circuito.
– Não é nada pessoal, lembra? Foi o que ele disse.
– Claro que não, é tudo mecânico, disse eu.
– Como era? É ruim pra instituição...
– Isso! É ruim porque os índices aumentam. Um índice! Uma vez eu era indie, agora eu sou um índice!
– Ou um indício.
– Um indício de que quem tem sono não tem jeito e vice-versa.
– E quem tem sonho?
– Depende, só se for pesadelo.
– Tenho mania de escrever sem critérios, o que vem na cabeça.
– E?
– E aí que penso que nunca ninguém vai ler.
– E?
– E aí que às vezes umas pessoas dizem que leram.
– E?
– E aí elas tem acesso à bagunça da minha cabeça.
– E?
– E aí elas pensam que a bagunça sou eu.
– E não é?
– É, mas ninguém precisaria ficar sabendo.
– Quer dizer que isso não passa de uma mentira?
– Quer dizer que isso não passa.
– Quer dizer isso?
– Quer.
– Então isso fica?
– Isso.
– Fica onde?
– Onde?
– Isso.
– Justamente na mentira.
– Justamente?
– Não passa, fica nela e se torna verdade.
– Justamente. Entendi.
– Será que isso vai dar certo?
– Se não der, não passa de uma mentira.
– E se der?
– Verdade.
– Como?
– Come.
– Por que você está comigo de novo?
– Porque você está comigo de novo.
– Por que você continua assim?
– Porque você continua assim.
– Por que você não vai embora logo?
– Porque você é minha melhor casa.
– Vamos ficar aqui pra sempre?
– Até podemos, mas não acho uma boa ideia.
– Metade disso então, que tal?
– Depende. Metade de pra sempre é quanto?
– É daqui a pouco, dá pra contar nos dedos...
– Tá, vou começar.

[10 dedos depois]

– Posso ir embora agora?
– Não deu metade de pra sempre ainda, não percebes?
– Mas já se passaram 10 dedos!
– É possível que tenhas esquecido de regular teus dedos com o fuso certo, a culpa não é minha. Vamos ter que regular e começar a contar do zero.
– Mas não tenho nenhum dedo-zero e agora?
– Teremos que ficar aqui pra sempre, então.
– Como saberemos quando isso chegar se não podemos contar?
– Não saberemos.

amigos-almofada

O bom de ter amigos-almofada é que você pode deitar neles, apertá-los, mordê-los, socá-los, jogá-los contra a parede, pisar em cima deles e até mesmo espetá-los com alfinetes, como se fossem vudus, e, ainda assim, eles continuam sendo fofos, companheiros e vestidos com sua estampa preferida.

2 em 1

– Por que você nunca vai nas festas?
– Porque é tudo sempre igual, as pessoas são iguais, sempre iguais...
– Já que somos todos iguais, por que você não fica com o vizinho em vez de ficar comigo?
– Porque basta eu ficar contigo pra eu ficar com o vizinho.
– Eu juro que eu pensei mesmo em ir embora na hora certa, mas aí quando tinha terminado o pensamento, a hora certa de ir já tinha ido primeiro.
– O fato é que a hora foi e você ficou novamente.
– O que eu podia fazer se você deixou a gente na penumbra?
– Ir embora na penumbra.

20101102

a "palavra" grita

Tem vezes que eu queria chegar aqui e escrever um texto bonito, que dissesse as coisas de um jeito minucioso, longínquo, sereno. Outras vezes lembro que no mínimo uma farpa deve conter nesse texto pra não tender à náusea. Eis que me deparo com as palavras que formariam essa maciez e essa rigidez, por vezes se alternando, outras vezes se completando. Aí as palavras me conquistam e eu esqueço o tal assunto bonito-ríspido que eu queria desenrolar nas linhas. Penso na primeira palavra e já vem de súbito a segunda e a terceira. Como se a maciez que eu quisesse colocar no texto estivesse na palavra "maçã" e a rispidez na palavra "criar". E uma loucura na palavra "explica" ou "ceroula". E raiva na palavra "rápido" ou "ventilador". Algo como: "Cria nessa maçã que te explico rápido como vestir uma ceroula na frente do ventilador." Esse texto é completo, compreende?
boicote
coyote
boicute
coybeauty

Cotidiano

Desalinho. Desfaço. Despeço. Que é pra acontecer na volta. Desvolto e pontuo. Faleço, embriago e continuo. Sorrio e mudeço. Meço, calço e morro. Desmorro. Desmaio. Desejo. Que é por quase nós. Desato. Que é por alinhavo. Desuso. Que é por descanso. Que é por deslize. Montanha. Mala. Mostarda. Que reprova, que renova, que revoga. Queda.

20101101

Desengano é isto.

Corro leve, levo as folhas entre os pés e pouso. Flutuo mais um pouco e desmaio sobre um pedaço da paisagem azul. Sobre a terra vermelha nublada. Tudo turvo sob os olhos. Todos olhos sobre a névoa. Toda névoa. Toda. Até não sobrar nem um fio latente de sereno. Azul-pardo. Se eu fosse outra pessoa, podia não estar enjoada. Enjôo de tão somente sentar na poltrona e pensar em água, em vinho, em xícara sobre xícara. Amanheço em mar de náusea. Só de sentir, só de morrer pro sono, só de viver e andar. A cada piscada uma tentativa nova de adaptação. Um brinde de piscadelas à cegueira voluntária. Ops, telefone: "Alô, desculpa, foi desengano" me disse o moço ainda a pouco. E me desligou. Posso trocar a cegueira pela surdez?

Fernando Pessoa esclarece:

"Mas o que fica de sentir tudo isto é com certeza um desgosto da vida e de todos os seus gestos, um cansaço antecipado dos desejos e de todos os seus modos, um desgosto anônimo de todos os sentimentos. Nestas horas de mágoa sutil torna-se-nos impossível, até em sonho, ser amante, ser herói, ser feliz. Tudo isso está vazio, até na ideia de que é. [...] A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. [...] É tudo um caos de coisas nenhumas."
(Bernardo Soares)

20101022

só de preguiça, só de desmaio, só de malícia. só de milícia, suplício. sereno de só, sulfúrico. saltitante ou suspenso. senso súbito de mudez: pútrida, pálida e polida. pungente palavra é pingente de larva. pilha sem carga, parda sarda. morder alguém que tarda. ou alguém que guarda.
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papo de ovo passado

Antes da salada tinha um ovo de avestruz. Ou era de codorna? Ele estava picado, por isso não servia a especificidade do diâmetro. Podiam ser vários de codorna ou metade de avestruz. Podia ser de galinha também, mas acho que o momento pedia algo um pouco distinto. Tadinha da galinha, tão cotidiana... Depois vinha a salada. Tinha de tudo um pouco. Não de tudo-tudo, mas uma boa parte de tudo. Tinha também um pouco da parte ruim na verdade. Sempre tem, né? Se bem que hoje eu entendo que até as partes ruins merecem um pouco de felicidade e respeito, coitadas. Aí elas viram um pouco de confusão e até deixam de ser ruins. Apesar de que, nesse caso, estaríamos excluindo elas novamente, coitadas. Coitadas! Eu queria dormir um pouco dessa clareza toda de pensar em ovo branco e meio borrachento. Quase que um gel exageradamente denso. Gel talvez seja coisa do passado. Ou do enrugado, que de passado-passado nem passado liso inventado. Passado liso é impossível. Vai ver por isso continuamos chamando-o de passado, pra existir uma transgressão furorística de vida. Ou de morte, em alguns casos.

Não vou conseguir deixar de registrar isso tudo.

De repente, acordei. Ou entrei no próximo sono, que seja. Conversa vai conversa vem, conversa vai-e-vem pois do contrário não haveria conversa. Me expliquei dentro de mim pra mim, noutra conversa vai-e-vem, mas não me entendi direito, pois falava meio baixo e com palavras trêmulas. Como se não bastasse, disparou um alarme na rua. De algo da rua. Algo enlouquecido por atenção. Quem inventou isso devia levar uns tapas. Ou umas palavras meio baixas e trêmulas. Daquelas bem gordinhas de tão baixas. Trêmulas perigando desmaio. Perigando por quê? Desmaiar é meio bom. Mas desmaiar baixa e gordinha é meio ruim. Não pra quem desmaia, mas pro resto.

Vivo de me distrair com essas conversas.

Como eu ia dizendo, entrei em acordo ou tomei um sonífero. Talvez mais de um pelo hábito quase que hipocondríaco de sempre tomar mais de um. Um nunca me satisfaz. Um não conversa, se explica. Se explica e se contra-explica. EX PLI CA. Gostei dessa palavra. Ela é meio punhado de areia em ângulo em laguinho das dunas. Sabe aqueles laguinhos que se formam no meio das dunas?

Vou tentar outra vez contar isso tudo. Começa com o alarme disparando. Quer dizer, isso é uma grande mentira, pois o alarme dispara só alguns anos depois. Na tal conversa vai-e-vem de explicação, lembra?

Certo, tudo começa quando... esqueci que as coisas meio que não começam, melhor mudar esse termo. Tudo... tudo também não me parece bom o bastante. Nada é tudo. A gente sempre esquece alguma coisa.

Esse papo que deu manga pra pano, meio como pedra engolida em papel, tem alguns anos de desmaio. E acredita que isso ainda continua? Depois de al-guns a-nos? Eu quase não acreditei de tão tola, mas vamos lá, mais uma vez com a manga no pano.

Dessa vez estou distraída o bastante, confesso mesmo. Não foi a coisa mais natural do mundo, até porque o mundo não anda merecendo coisa muito natural. Desde quando, nos dias de hoje, o mundo é natural? E as pessoas tão aí, no meio disso tudo. E também no começo. Acho que é por isso a manga não entra em secura profunda, deve estar cheia de conservantes e acidulantes (não que eu saiba o que exatamente seja este último).

É que quando a manga era verde... oras, que metáfora idiota, quando ela ERA contava com outro tipo de pano, se é que me faço clara. Tá bom, isso de ser clara não costuma acontecer porque eu fico com os dois pés atrás (é que tenho seis pés) quando falo das coisas da minha vida. Mentira, eu não tenho seis pés, portanto vivo de estar atrás por inteira mesmo...

O fato é que eu me entregava há alguns anos. Hoje simplesmente não dá. É uma droga. Ou duas ou mais (por causa do hábito quase que hipocondríaco). Na verdade é bom que isso fique ambíguo, pois não tenho convicção se a droga era antes ou depois.

20101019

poema nomes

melissa, julieta, violeta
frida, amelie e flora
penélope, isadora
rebeca e maria antonieta

pablo, joão, valentin
martin, mathias, enzo
alícia e joaquim

20101018

essa dor-de-cabeiça
que não me deixa
nem amei-xa

Quanto de sono cabe numa cabeça que não tem mais espaço livre?

– Tem que empurrar o resto pra fora pra conseguir dormir.
– O problema é que tento empurrar e acabo empurrada da minha própria cabeça.
– Então fazer morrer, adormecer as coisas pra conseguir dormir junto com elas.
– É que alguns pensamentos se multiplicam enquanto vão sendo pensados. Sabe, se alimentam da própria ação que os fazem ser o que são. É como se cada vez que eu me provasse ser gente, eu me desdobrasse em duas, três, sete, dezenove... e fosse preenchendo o espaço livre do mundo.
– Isso parece ser um problema inventado, mas continue.
– Bocejei! E o bocejo se desdobra do mesmo jeito que o pensamento, quanto mais se afirma existir, mais existe em quantidade.
– Isso não parece ser inventado, não continue.

20101005

adoro:

comer danoninho de colher amarela ouvir música latina em dia de chuva almoçar aos domingos compartilhar pensamentos pequenos aleatórios escrever até a letra se tornar um rabisco rabiscar até surgir alguma palavra sentar em posição de lótus esticar os braços pra trás ao mesmo tempo em que alongo o pescoço sorrir de modo engraçado coçar o olho acordar com o cabelo bagunçado lembrar que um dia tive cabelo cor-de-rosa lavar o rosto muitas vezes ao dia descobrir palavras que rimem com agulha ou migalha ver o pudim ficar espesso esticar-me permanecer quieta por um longo tempo

20101002

– lááá no fundo eu até gosto das pessoas
– eu tbm, mas só qdo elas tão enterradas bem no fundo mesmo

20100922

usar xícara de cumbuca, escada de estante, banco de mesa, bolsas de armário, sempre achei lindas as funções secundárias

20100916

pro sustentabilismo

alguéns sempre reclamando do descuido com as plantas. alguéns que devem favores ensolarados aos pássaros amorfos. ninguéns que somem, somem, somem, etc, etc. comem, comem, comem, etc, etc. e assim vão. e vêm. e vão. não bastassem essas repetições de alguéns irritantemente de longínquas línguas de areia e patas de água salgada. por usar conchas de encontro. por usar lontras como amigas diagonais. por usar peles de ursos ou pêlos de moscas. de homens-mosca. etc. repaginar a praia em aquário de acrílico. na politicagem dos peixes. na sustentabilagem. nessa ilógica, incoerente, inconstante, saliente, etc, etc, laia.

20100913

vp!A

20100910

carta a alguém mais desconhecido ainda

"Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar mais gordo, escutei um perfume de sol nas águas." "Pouco" "me importa ser entendida", parece que eu vivo pra passarinho. "Eu queria avançar para o começo." "Existe uma vontade." "Como começo?" "Não quero dar um falso futuro a cada vislumbre de um instante. Tudo se passa exatamente na hora em que está sendo escrito ou lido." ASSAR OS INSTANTES. Percebi. "Só a alma atormentada pode trazer para a voz um" "formato de pássaro." "Na palavra está tudo. Quem me dera, porém, que eu não tivesse esse desejo errado de escrever. Sinto que sou impulsionada. Por quem?" Penso quase, não quase penso. "Todas as manhãs." Eu também sonho. "De repente as coisas não precisam mais fazer sentido. Satisfaço-me em ser. Tu és? Tenho certeza que sim. O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência. Decerto tudo deve estar sendo o que é."

"Não gosto de palavra acostumada."
"Não tenho habilidade pra clarezas",

Anna


*recortes de clarice lispector e de manoel de barros
Se a pessoa sabe muito sobre signos ela deixa de saber sobre outra coisa qualquer, uma vez que ocupa uma de suas gavetas com essa informação. A não ser, é claro, que essa pessoa seja do signo de aquário, pois, sendo assim, a informação certamente não estaria armazenada na gaveta, mas perdida em algum canto aleatório da casa, seja da própria pessoa ou de algum amigo, colega, parente, conhecido, semi-conhecido, desconhecido, etc.
Henrique estava vivendo com sua memória mais apurada do que sua imaginação e não via a hora de voltar ao anormal.
– Coração, bata antes de entrar e depois também. Grata.

20100904

Fazer dormir as coisas que acordam no berreiro em dias que devem aos domingos suas referências.

Fazer dormir essas coisas que não se acalmam no sonho, que não se despedaçam nem se aconchegam, que não entram em acordo quando acordam mas que também não discordam, que não soluçam com velocidade nem se aquietam discretamente, que não aparecem nem somem, que não vivem nem morrem, que nem pólen, que não amolecem mitocôndrias nem restituem orquidários à luz de velas, que são elas, as coisas secretas, que são belas de raiva, abelhas com surdez, moduladas, imprecisas, preciosas, parecidas e pálidas mesmo coloridas, latejantes e avenidas.