20121031

(para Giovanni Ceconello)

O caminho do ciclo de transformação do eterno retorno é infinito: o passado não tem princípio e o futuro não tem fim.

(I Ching, Ch'ien, Céu sobre Céu)

Resumo de quarta:

crianças brincando de carrinho de rolimã até o fim do mundo onde as almas dos galetos são suspensas aos domingos enquanto tocamos piano e bebemos café sem açúcar.

que uma vontade era de ficar te ouvindo falar,

assim, pra passar o tempo...

Des-existir

Dia desses pensei seriamente em desistir e me matar de vez. Mas não como se mata uma casca, golpeando-a contra a quina da pia. Cederia, em vez disso, meu corpo à máquina, em morte súbita. Num abandono voluntário de ser flutuada, seria suspendida ao alcance do mundo. Mas antes certamente precisaria conversar em meia-voz com um amigo que não conversasse comigo, só que me abraçasse ao respirar os meus murmúrios. Depois disso, cabisbaixa, engoliria a mim mesma. Num exercício de digestão da máquina, então, expeliria eu de mim. Me vomitaria enquanto fosse devidamente maquinada. Maquiada ao olhar do metal. Seria finalmente uma dessas pessoas importantes que todos bocejam e celebram de vez em quando. Essas pessoas confinadas a serem aquilo que é ilhado de si mesmo, onde a água que as cerca é pelante e mete medo em quem não flutua nem poucas medidas.

20121030

Esquecer aquilo que se mantém à distância da ausência, à distância da presença, e que no entanto faz surgir a presença, a ausência, pela necessidade do esquecimento, é esse movimento de interrupção que nos pediriam que realizasse. - Esquecer tudo, então? - Não apenas tudo; e como poderíamos esquecer tudo, já que "tudo" compreenderia também o próprio "fato" de esquecer, reduzido consequentemente a um ato determinado e destituído da compreensão de tudo? - Tudo esquecer seria talvez esquecer o esquecimento. - O esquecimento esquecido: cada vez que esqueço não faço senão esquecer que esqueço. No entanto, entrar nesse movimento de reduplicação não é esquecer duas vezes, é esquecer esquecendo a profundidade do esquecimento, esquecer mais profundamente desviando-se dessa profundidade, à qual falta toda possibilidade de ser aprofundada. - É preciso portanto buscar outra coisa. - É preciso buscar a mesma coisa, é preciso chegar a um acontecimento que não seria um esquecimento e entretanto só seria determinado pela indeterminação do esquecimento. - Morrer pode parecer uma boa resposta. Aquele que morre acaba de esquecer, e a morte é o acontecimento que se faz presente na consumação do esquecimento. - Esquecer de morrer é às vezes morrer e às vezes esquecer, e depois é morrer e é esquecer. Mas qual a relação entre esses dois movimentos? Nós não a conhecemos. O enigma dessa relação é o da impossibilidade.

[...] Pelo movimento que subtrai (o esquecimento), deixamo-nos voltar para aquilo que escapa (a morte).

(BLANCHOT, Maurice. O esquecimento, a desrazão. Em: A conversa infinita: a experiência limite. São Paulo: Escuta, 2007, p. 172-173)
Poema não põe mesa,
vai ver até hoje por isso
comi sentada no sofá
e nem tomei chá de sumiço.
meu nó tá nós

20121029

(com/para emilly terres)

- chove o céu
- chove o infinito
- toma-se banho de infinito
- o limite se deságua em mim
- o deslimite da água
- o banho da chuva
- o infinito do corpo
- meu desmaio teu desjunho
- nosso desjejum

colocar o despertador para lembrar que daqui 15min o despertador vai tocar

convite para a noite da panqueca

tudo no fora de seu devido limite

durar é diferente

todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento que difere morre a todo momento (infinitum)

20121023

expuséreis. vós répteis expondo

20121020

O passado é um bloco (presente);

se te vem um pedaço, te cai o bloco inteiro na cabeça.

Bloquear faz parte do abismo, pois a queda com tudo conspira, constripa, conscreve. De nada adianta diante de tudo. Te torcem os calcanhares, te roubam a leveza, te disparam o coração. Desde sempre esse vazio no estômago; ansiosa, à beira do precipício. Queixas que não são, que cão, que late de dúvida, abafando o choro, o coro de água, o susto do touro. Distâncias entre outras, corridas de breves suspiros, alívios na rigidez acostumada. Amor de amigo nem se fala.

20121017

passar o presente
presenteando o passado

20121014

deprimir-se por nada

por tudo
por tudo que é nada
todos os dias
noites
morrer em vão
em via viva

perceber o vazio que se é.

o cheio que não se vê. a mudez que se fala. o chão que se voa. as pessoas que se ama. todos que se perde. nesse caminho pausado. de passo-a-passo entrelaço. tudo frouxo. escapando de vento em roupa. de sutileza em lágrima. de magma. de estagnação. de abismo. de morrer até que a vida volte. de respiro entre as peles. de agulhas finíssimas. de tristes vergonhas. de corpos moles. de mortas cegonhas. de pernas curtas. de surtos. te mudas. mais uma vez. antes de

20121013

por que tu escreves essas coisas?

tem pergunta que eu me deslimito a responder com um exagerado silêncio

quando eu me flagro pensando a escrita

desde muita palavra que retomo confusão uma a uma. misturo todas na mesma textura. afogo tudo no mesmo gel. desenxergo na mesma névoa pra sentir. tudo junto, tudo muito, tudo aos poucos, sem saber o que é o que.

o sem saber me possui. sempre que não sei, sou meu universo. meu único.

feito louca que eu te amei,

sim, feito louça de vidro que acha que pode ser posta no forno sem rachar. eu quebrei, sim, feito louça que não pode ser posta no forno, mas se põe mesmo assim. eu calei, sim, porque falar entre as rachaduras da minha pele só as fazia ficar ainda mais secas e quietas. mas eu tentei. tentei sim, tentei não, tentei me abrir pra mim mesma. que eu te amei e não sabia mais como deixar de te amar. que eu quebrei sem saber me reformar. que eu sonhei, me mudei, me apaguei. que eu não mais estava em mim porque tu tinhas ocupado todo meu espaço. mesmo sem saber, mesmo sem ser realidade tu eras real. enquanto isso eu esqueci de ser. eu esqueci que me tinhas feito louca nas mãos. feito moça que não sabe o que quer, mas quer mesmo assim. feito lã. feito rã. feito fronha. que, sim, envolve teu alto travesseiro ainda hoje. mesmo que não sejas mais, mesmo que não vejas mais, mesmo que não mais eu te ame ainda. mesmo que eu te ame ainda mais.

20121011

today i'm celebrating our insanity


hoje eu estou olhando para o mundo
e eu vejo feiúra e beleza, vizinhos
um anjo mora dentro de um mentiroso
e ele nem sequer sabe que ele tem tudo isso dentro dele

foi sete anos desde que eu estive procurando
e eu estava chorando por mais

hoje eu estou pegando de volta as minhas palavras
porque eu tenho julgado a todos tão facilmente
em vez disso, eu te mostro quem eu sou
um mentiroso, um anjo, um gênio egoísta generoso 
covarde

foi sete anos desde que eu estive procurando
e eu estava chorando por mais

hoje eu estou olhando para o nosso mundo
e eu acho que as escolhas estão por toda parte
a cada segundo

nós escolhemos amar, escolhemos odiar
escolhemos perder ou ganhar
a assumir um risco ou desistir

porque é sete anos desde que eu estive procurando
e eu estava chorando por mais
foi sete anos desde que eu estive procurando
e eu estava morrendo por mais

hoje estou comemorando nossa insanidade
porque nós estamos amando injustificadamente
perdemos a nossa segurança
nenhuma promessa
não há sinais para onde ir
apenas um momento de alegria pura

e foi sete anos desde que eu estive procurando
e eu estava chorando por mais
foi sete anos desde que eu estive procurando
eu estava chorando por mais

medida de horas em gramas (para mari pic.)

14g30: tem horas que passam muito pesadas pela vida da gente, se arrastando de tão gordas, estufadas de tanta vida, de tanta quantidade de coisas, de coisas igualmente gordas, pesadas, chumbólicas, excessivas, massantes, que a gente mastiga repetidas e repetidas vezes, mas nunca consegue terminar, engolir e caminhar sem as costas curvas, sem o olhar pendente, perdido, arrependido de ter comido aquilo tudo de uma vez só, de ter optado por peso e não pelo buffet livre, comido aos poucos, sutilmente, de uma leveza lindíssima que a gente nem sente, quase como uma hora-alma que perambula no nosso dia, na nossa vida, no nosso corpo, na nossa morta hora-chumbo, na nossa horta interna, trabalhada, descansada, descascada, desajeitada e serena, sereno, noite, dia, vida, ano, século, fantasma. diga não aos fantasmas obesos.

20121009

tem finito que perdura

tem dia que não dá pra deixar passar; tem dia que não dá pra deixar; tem dia que não dá; não dá não; tem noite que dá; menos pra deixar passar; deixar passar dá pra deixar passar; dá pra ter dia que não; dá pra ter noite; dá pra deixar passar não;

20121007

03/10 2

destacada do rato
flutuada do doce
possuída do sono

03/10 1 - O rato estava pra lá de morto.

Qualquer coisa que fosse, o rato estava pra lá: pra lá de morto. Vê se pode: eu aqui escrevendo sobre o rato e o rato pra lá de morto. Que mentira: o tempo passou e eu não escrevi nada: eu pra lá de morta. Mas pra lá, tão pra lá, que estou aqui. Pra lá de viva?

20121005

justamente essa impotência

viver tentando combater. viver tentando não absorver se mantendo inteira. mas às vezes nos derrubam sem sabermos. e quando vemos já estamos com o corpo mole, pedindo socorro por corpos que escutem, que pensem, que enxerguem. não por corpos cegos, surdos e falantes só por conveniência do poder;

O que pode um corpo?

Então somos um grau de potência, definido por nosso poder de afetar e de ser afetado, e não sabemos o quanto podemos afetar e ser afetados, é sempre uma questão de experimentação. Não sabemos ainda o que pode o corpo, diz Espinosa. Vamos aprendendo a selecionar o que convém com o nosso corpo, o que não convém, o que com ele se compõe, o que tende a decompô-lo, o que aumenta sua força de existir, o que a diminui, o que aumenta sua potência de agir, o que a diminui, e, por conseguinte, o que resulta em alegria, ou tristeza. Vamos aprendendo a selecionar nossos encontros, e a compor, é uma grande arte. A tristeza é toda paixão que implica uma diminuição de nossa potência de agir; a alegria, toda paixão que aumenta nossa potência de agir. Isso abre para um problema ético importante: como é que aqueles que detêm o poder fazem questão de nos afetar de tristeza? As paixões tristes como necessárias ao exercício do poder. Inspirar paixões tristes – é a relação necessária que impõe o sacerdote, o déspota, inspirar tristeza em seus sujeitos. A tristeza não é algo vago, é o afecto enquanto ele implica a diminuição da potência de agir. Existir é, portanto, variar em nossa potência de agir, entre esses dois pólos, essas subidas e descidas, elevações e quedas.

Peter Pál Pelbart
nota para um passado próximo: não nascer

20121004

com palavra tudo fica tão fácil:

tudo vira ação, tudo se move com tudo, com todos, com restos, com gostos, desgostos, olhares ou não. tudo tanto faz. se mexe, se dura, desaparece em qualquer fora. tudo se conecta, não importa procedência, aspecto ou violência. tudo vira, vira homem, vira-vira. tudo se desfaz, se desvira, se revira. tanto faz que tudo importa, até palavra que se diz morta. tudo até nada. nada até tudo e pesca. depois come e fala.

empalavrar

tem palavra que encaixa
tem caixa que empalavra

20121002

(o que restou de hoje: foi ontem)

26/09 1 - Ambrosia

Sonolenta, assento meus sustenidos e disparo insistentes sulfites aos alfaiates:

Disse eu - Quero essa linha em tracejo por cima desse órgão de bocejo, por menor que seja a superfície, nem que permita só um risco. Disse ele - Certo, nem que seja incerto e passante, translúcido, translúdico, transpúdico, suspiro. Disse eu - Ambrosial, que seja uma torta de mousse de chocolate ou de limão, que se lance em dia de domingo. Disse ele - Que se sustente, mesmo que pause em pipas ou bicicletas, salte de cilíndricas canelas em cravos pontiagudos, desapontados, permanecidos, rotacionados, filetados, tão assados que só eles... Disse eu - Confeitados e açucarados, resgatados aos mirtilos, aos mistérios que nos são sóis.

E ficaram os dois: formigando aos doces, papeando a sós, num sol bemol, na tecla destacada do piano do dia.