20080928

Quero as 
palavras 
que 
sirvam 
na 
boca 
dos 
passarinhos.

Manoel de Barros

20080927

Aprendi que o mais importante não é o hardware.
Porque se de porco for o firmware
não há software que vire Mac,
nem que abuse de muito beck
num dia de sol ou em outro qualquer.

(máquina de corpo, de espírito e de personalidade)

- oi? ponto último ideal? você está aí?

As coisas fazem o tempo.
Mesmo que ele não tenha passado pelas coisas ainda.
O tempo é só coisa-de-vento: que empurra um pouco o pensamento pra lá e pra cá.
Mas ele não dá conta das coisas: não tem força pra isso.
As coisas têm viva própria. Elas fazem o tempo delas.

20080925

Ai! Hoje virei uma Graciosa Rodela D'alho!
Admito que foi pra conseguir chorar no assoalho.
E como se não bastasse o ato meu
Deusarina ainda me compreendeu
e me disse: "agora sim vais poder tocar chocalho!"
Ontem eu pisei no pé dum fantasma,
e então descobri que ele tinha asma.
Foi um passo pra trás e quase cai
e cheia de fome eu o senti;
a minha barriga roncou e fiquei pasma!

20080924

Ele faz várias cabeças sem base
e não é uma coisa de fase.
Nada passa assim tipo chuva,
é muito mais como pé de uva:
não passa, mas está sempre quase.
Nem quero mais pensar na Saudade,
só quero que ela não me faça maldade.
Já estou cheia de açúcar e formigas,
mas é porque as coisas doces são tão amigas!
E olhem que isso nada tem a ver com a tal beldade.
Aquelas que olham com o canto do olho
são as que mais gostam de comer repolho,
não praticam esporte nas quintas
e costumam ter róseas pintas:
peludas e grandes como afirma o caolho.
Quando vejo alguém tendo chilique
logo penso: "essa pessoa só pode ter aplique!"
Já que não teria outra explicação
pra ficar gritando como se fosse solução.
Até parece que acha loucura chique!
Outro dia vi um céu cheio de pássaros,
e então voei e vi que eram todos raros:
todos tinham boca, olhos e nariz;
foi quando gritei, sem hesitar, como um chafariz:
"é por dentro que as coisas precisam de reparos!"

20080923

Eu não vou nunca saber do outro o que se passa
porque se eu tentar saber assim de graça
vai ser mentira, porque será só meu ponto de vista
diante do que eu mesma sinto e sigo à risca
e no fim não vou passar de uma palhaça.
Algumas pessoas da família são de outra família,
mas todas as três são da mesma ilha:
têm um M como começo,
são lindas e não têm preço,
ligam pra mim e nem precisam de pilha.
Tinha um cachorro de rua todo encardido,
entretanto ele não parecia perdido;
queria ter metade da sua confiança
pra viver tudo com ar de dança,
como o vento que ele tinha mordido.
Eu espirrei ainda à pouco um monte de poeira,
e quase que caí desesperada da beira...
Foi que antes mesmo do vento
eu fiz um movimento lento
que me fez dar a mim mesma uma rasteira.
No comprido rio que tinha aqui no quarto
passavam sempre duas primaveras em parto:
uma por baixo do pano
e outra por dentro do cano,
sempre em duas, rastejando que nem lagarto.

20080914

o seu olhar seu olhar melhoramelhora o meu

arnaldoantunes

quase-quase

por que a fala some?
e é na chuva agora
e ainda se esconde
e não me leva embora

pra que tudo isso?
de se perder no céu
era tudo tão fixo
escrito no papel

e eu registro
e eu registro
minha quase-fala
minha quase-mágoa
de doer até o cabelo
de dar nó no joelho
pra tudo se perder
e nada se ajeitar

naan

outvenção é uma ventania pra fora
outventar é o vento que fica fora dos ventos

(eu outvento e eu invento)
inventar é ventar dentro do vento
o vento de ventos é inventado por dentro
pra fora do vento é só outventar
qualquer fora

xô!vida

1 barulho de chuva para dormir
2 cheiro de grama em dia de chuva
3 banho de chuva com boa companhia
4 pisotear a lama até cansar
5 corrida de pingos d'água em vidro
6 filme em dia frio de chuva embaixo das cobertas
7 pisar a areia recém-chovida
8 sorriso chuvoso ou chovido meu

20080910

trova trovão que não trova nada

se não trova não é trovão
se não é trovão não trova
um trovão não trova nada
nada trova feito trovão

um trovão não é nada
nada é trovão de nada
nada é um trovão
um trovão não é nada

se um trovão trova nada
se não é trovão nem nada
senão trova não é trovão
o que é um trovão?

um trovão não é nada!
um trovão não é nada!
nada é um trovão!
senão é trovão nem nada?
é um trovão de nada!

20080909

me tira dessa vida, marina

vai, por favor, me tira

eu quero viver como criança
só brincar sem desconfiança
num mundo todo colorido
onde nada faz sentido
como um muro pra pular
sem precisar pensar

é que eu preciso pular o muro
de dia ou até no escuro
eu só não quero continuar aqui
nesse faz-de-conta que eu caí
e foi de cabeça e agora ela dói
porque tudo se destroi

tododia-tododia
me vê a tal da alegria

20080908

3 de setembro

Até pude dizer, com a minha velha concepção de 3 de setembro, naquela hora precisa (que foi a primeira vez que escrevi com o ônibus em sua tão veloz corrida pela Beira Mar ou por qualquer curva ou por qualquer rua estreita...), que foi o dia mais oscilante que já vivi. Eu vivi esse dia sentindo tudo quanto é coisa. Vivi tensa, vivi "sensa sofito", vivi densa: vivi propensa a chorar e logo depois ser a pessoa mais feliz. (A essa hora do texto eu começara a ficar tonta... o ônibus corria mais que todas as Lolas...)
E foi depois de ficar tonta que eu percebi que o ônibus que eu havia pegado era o direto! Que sorte a minha! A letra já ia ficando mais feia por causa do morro da Lagoa, e também era por causa do morro que eu estava quase vomitando. E dessa vez não seriam palavras.

por coisas mais mágicas



Uma Fatia de Sofia

_ Sorria, Sofia! Veja que lindo que nasceu o dia! - Sofia ia e percorria o dia com toda empatia

_ Eu quero brincar de gato mia - dizia e ria Sofia de alegria

A única coisa que Sofia não queria era ficar pra titia... que, de resto, na vida de Sofia, ela fácil-fácil resolvia.

_ Assobia, Sofia! Assobia!

E corria Sofia da família como quem nada via...

_ Espera, Sofia! - e tudo silencia - Que entupiu minha pia!

Ai, Sofia, que agonia. Como se não bastasse toda falta de harmonia, ela ainda era aquela que os problemas resolvia!

Foi quando Sofia, da noite pro dia, resolveu que ia pra Bahia. - e ria, a menina Sofia, de alegria, como se na Bahia a pia sozinha se desentupia...

_ EU TENHO ALERGIA À DESENTUPIR PIA! - gritava Sofia, de agonia

e sorria e sofria
e sofria e sorria
e sofria e sorria
e sorria e sofria

_ MAS QUE MANIA MALUCA DESSA GURIA!

E era uma gritaria porque Sofia não se decidia se sorria ou se sofria.

_ Eu sabia, Sofia, que toda essa melancolia era por desentupir pia todo dia.

E, então, Sofia resolvia sua apatia na padaria, tododia-tododia, e tudo agora parecia satisfazer a guria.

_ Olha a alegria, senhorita Sofia! Nada de fobia e cia!

Sofia não mais sofria, pois sentido não mais via em passar tão longe da alegria.

_ AGORA SOU FRIA! - exclamou, por fim, essa guria Sofia.

20080906

sobre o meio


a metade da vida é o que passa
a outra metade é desconhecida

e o meio, ah, esse sim!
é no meio que as coisas são agora e boas, como sempre. como as coisas boas que passam e passam pra metade de lá. e, então, as coisas boas passadas viram as coisas ruins de agora. e então as coisas ruins passam de novo, e vão também pra metade de lá. e, depois de tudo, as coisas boas e ruins passam, e o que fica? nada fica, tudo passa, o que tem agora são coisas novas que nascem. nascem de onde? nascem das coisas boas e das coisas ruins passadas. as coisas sempre deixam restos pra agora não ser nada. o que será que nascerá daqui a pouco pra ser agora?

Tenho 5 minutos em cada mão.

Levanto um minuto, e dois minutos depois, tenho três minutos. E então, minha mão inteira se levanta em pouco menos de cinco minutos. E quando chegam os cinco minutos inteiros, perco a outra mão, que tem mais cinco minutos pra voar.

Pra segunda:

Segunda-feira serei Sofia
sem saudades e sem soluços
e sem qualquer ironia.

Será a segunda sem certezas,
mas será certa de desapegos
e preenchida de levezas.

NÃO É SIMPLES SER SOZINHO

SER SÁBIO É SER SECO E SAUDÁVEL SEM SOFRER SAUDADE
SOLETRAR SOLUÇO É A SOLUÇÃO PRA SOLIDÃO
SILENCIAR CIÊNCIA É O SENTIDO DA SERENATA
SALADA DE SOPRO SATISFAZ O SONHO SOLITÁRIO
SEQÜESTRAR SELETAS SALGADAS SÓ ASSUSTA OS SURDOS
SENTAR-SE SOZINHO AO SOL É SABER SILENCIAR
SENTIR-SE SECRETO PARA SALVAR O CÉU DA SUCATA
SER CÍNICO E SORRIR SEM CESSAR
SONHOS SELVAGENS SÓ SURGEM EM SOROCABA
SENTIR-SE SOFIA E SOLIDÁRIA E ASSOBIAR SEM SARCASMO
SOU SÓ DE SUSTOS
SALGADOS E SECRETOS

Meus meios soluçam.

Quando o meio entra em estado de soluço, não há silêncio que pontue um fim.
A finalidade de pontuar, em teoria, seria a possibilidade de iniciar outro meio.
Essa enxaqueca são as palavras pulsando em meus olhos: lacrimejam os meios sem fim sem silêncios certos.