20070628


Essas coisas todas -

Mais Nonsense

"SE VOCÊ ME DIZ QUE MEU NARIZ É COMPRIDO, É PORQUE VIVE ILUDIDO!"
_Edward Lear, tradução por Marcos Maffei

20070627

Mas e o amor?

"A intimidade é uma merda, disse alguém. Talvez quisesse dizer que o casamento é que é uma merda. Mas e o amor? Não se pode viver sem amor, o que, em si, já é uma merda. A ponto de alguns dizerem do amor: grande merda.
É o que diz a Nóris atualmente. Não que o diga sempre. É mais quando acorda sem coragem de enfrentar a gravidade. A gravidade, até mais que a intimidade e o amor, é que é uma merda. Sob gravidade zero, a merda flutua. Muitos astronautas já observaram:
_Merda que flutua é uma merda."

(...)

"Nem tomou banho. Pegou bic e papel pra escrever o bilhete pro Júnior, com as ordens do dia. Olhou muito pro papel, antes de se decidir a escrever alguma coisa. Depois, correu pro trabalho. Tinha vários testículos e próstatas pra extirpar naquela manhã.
O Júnior encontrou o bilhete preso debaixo da lata de nescau, na cozinha.
'A vida é uma merda de ostra podre', leu em voz alta.
Do outro lado do papel lia-se:
'A vida é uma ostra podre de merda.'
Aparentemente a mãe não se decidira por nenhuma das formas e resolveu deixar ambas registradas."

_Reinaldo Moraes

20070626

As coisas da minha cabeça não saem de mim; da minha cabeça, não coisas minhas (...)

Algumas coisas

Não. Não é bem assim que as coisas funcionam. Estava esperando Ontem, há pouco tempo, até que Hoje veio em contraponto: cercada de impossibilidades.

Quase que desisto das coisas; não bem das coisas todas, mas das coisas da minha cabeça, e que fique bem claro: não são coisas minhas; são da minha cabeça.

20070625

sem cabeça nem pé

HAVIA UMA MOÇA CUJO OLHO
TINHA O TAMANHO DE UM REPOLHO.
QUANDO ELA O ARREGALAVA,
TODO MUNDO SE ESPANTAVA.
E DIZIA: "NOSSA, QUE TROMBOLHO!"


(Edward Lear, tradução por José Paulo Paes)

NÃO-EU

Suponho que chegou a hora de vomitar enganos da minha vida: que não sei mais quem sou, que não vejo mais nada que não eu, que eu; que alguém poderia ver ou imaginar. Nem percebo mais palmos ou palmas da minha mão em mim; quase vejo meu reflexo de algum dia que não sei qual, na minha janela, no meu armário da cozinha, na tv, no monitor do pc, no óculos, nos próprios espelhos da casa e até na unha-cor-de-quase-tomate-equivocado-num-tempo-frio-que- deveria-ser-quente. Na colher, na faca, na panela. Estou em todo lugar e ao mesmo tempo em lugar nenhum. Uma imagem não é nada. Nada é nada. Estou de tempos-em-tempos em nada. Quase que não sei o que quero, logo vai embora a certeza, mas eu puxo, eu puxo pra mim o que não é de mim; pra mim o que não sou é mais eu do que eu mesma posso me sentir. Sentir é brega, a vida está, e somente está, em pôr os pés no chão e não olhar pra lugar nenhum que não pra frente. Seguir o vento, sem ultrapassar nada, nenhum limite, tranqüilamente mar, tranqüilamente mar-morto demais.
NUNCA FUI ASSIM. NO ENTANTO, AGORA ESTOU MAIS SEM MIM; E MAIS NA VONTADE DE EXPLORAR MEU LADO-NÃO-EU. SOU NÃO-EU POR UM BOM TEMPO, OU POR TODO O TEMPO QUE TENHO EM MIM AGORA.

20070619

Alto, da escada pro chão

Agora a pouco pulei alto, da escada pro chão, estava de molas, estava molenga. Espreguicei-me tanto pela manhã, pois virei molenga escada abaixo. Corri Lola, Alícia. (Sinto falta da Lola.) Andei pelo corredor, corri de novo. É clichê, mas uma borboleta me perseguiu. Achei lindo, clichesisses muitas, mas continuei a achar lindo! O dia está com um sol, lindo como a borboleta. Senti-me tão feliz, estranhei aquela ausência de falta (nonsense, viciei) de sorriso inteiro por dentro, consumiu-me rápido e não foi; não foi, ficou. É galerinha, tô aqui bem feliz, hoje. Sinto bem, com cólica, bocejo e uma futura-hoje perdida noite. Eu almocei, pulei, dancei em pouquíssimo tempo; como se o não fosse ter mais. Parecia, clichê idem.

20070611

MIVARO

V O M I T A R
V O I
T A
M I
I M T A R
M I M
V O A R
M A R
M I A R
A RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR

Me-em excesso

Gente!(?) Só falo de mim, só falo de mim, só falo de mim (...)
Como se eu não falasse nada, falo comigo mesma, como poderia falar de qualquer outra coisa?
Nasci comigo, sou eu e falo comigo de mim.
Talvez, talvez não, suponho uma grande certeza nisto: sou tão sem mim que me tenho em excesso!
Ando ficando com lógicas ____________________.

Concretas são as minhas vidas sem mim, Alícia. Não vês? Vejo tudo como se fosse pálido e gélido. Foi pálida e gélida que me encontrei. Olho demasiadamente pro céu, que não me oferece nada... Ah não, o Sol. O Sol me cega, nubla-me (conheces hein?), o Sol faz um ninho em mim. Eu ouço o Sol tão, mas tão alto e agudamente insuportável, que me estremeço, danço-me em mim rápido; giro, giro, giro. Eu olho e não vejo nada, poxa! Que direito eu tive de fazer comigo, isso?
Não conheço uma paz que me descanse, now. Ah, claro que conhece, Alícia. Não vem colocar pato pra fazer Yoga no rio Vermelho! Sabes então, aquele silêncio que me tomaste outro dia? Vi-o passar, esqueceu-se de mim. Quero meu silêncio de volta, Sol! Sol! Sol!

_Dei nó!

Enrolei tudo na margem de um nada; inspirei o um nada oposto à ausência de um tudo. Nesse nada vi excesso de tudos, tudos essencialmente carregados de sem.
Sem-som, sem-cafeína; meu desejo despedaçaria qualquer cortina, qualquer feltro, qualquer pelúcia que aparecesse por um desses sem.
Sou sem, sou tudos: excesso de desejos, qualquer que seja a minha altura ou loucura (porque dessas aprendi algumas coisas nos últimos tempos), vou buscar, infinitamente alto, sem-fumaça, qualquer que seja, qualquer que seja.
Enrolei, de enrolar, dei nó! Dei vários, cansei de linhas sem-amassos. Cansei de ausência de sem.
Sem-quem, sem-bah, sem-literal-poá (de pois, de-pois).
Permaneci numa neura, sem-neura propriamente em si, isto é, como deveria ser exatamente. Dei várias, várias neuras. Dou neura quando fico assim, sem.
Sou isso mesmo, nem sequer ligo ou te ligo, ou ligo qualquer Lisa, sem-amassos. Odeio coisas sem-amassos. Falta sem demais para terem alguma altura diante da minha vida.
No verão, na tarde de ouro,
Deslizamos vagarosamente.
Nossos remos são manejados
Sem perícia no sol ardente:
Mãos gentis, que fingindo vão
Guiar nosso passeio errante.

Ah, cruel trio, que tal hora,
Sob o céu de esplendor e sonho,
Implora um conto sem vigor
E de pobre alento, enfadonho.
Mas que pode tão fraca voz
Contra o coro infantil, risonho?

Prima decreta, imperiosa:
"Agora, por que não começa?..."
Em tom brando, Segunda roga:
"Que seja sem pé nem cabeça!"
E Tertia, uma vez por minuto
Fala somente, não se apressa.

Logo mais se calam, de súbito,
Em vão seguindo em fantasia
A viagem-sonho da heroína
No país de assombro e magia
Em alegre charla com os bichos.
E creêm um pouco na utopia.

Quando a estória já se esgota
-Seco o poço da imaginação -
Tenta habilmente o contador
Desviar-se do assunto, em vão:
"Conto depois..." "Já é depois!"
Elas protestam em confusão.

E assim cresceu este País
Das maravilhas. Uma a uma
Surgiram nas suas aventuras.
Está pronta, sem falha alguma
A estória. Voltamos lépidos
Antes que o sol da tarde suma.

Alice! Recebe essa estória
E com mãos gentis deposita
Lá longe, onde os sonhos da infância
Se confundem com lembranças idas,
Tal guirlanda de flores murchas
Em distante terra colhidas.

Lewis Carroll

Nonsense

Dissolver fronteira entre a linguagem do senso comum e do discurso social e a linguagem censurada, a da infância, do sonho e da loucura.


*Lendo Carroll, sobre Alice e seus infinitos paradoxos.

Sinto-me chubby

Estou aqui e sinto que não estou. Sabe, quando você percebe estranhamentos tão, mas tão alongados e chubby's que não vê nada ao seu redor que comprove sua presença, até mesmo física. É como se fosse uma projeção do que um dia possa acontecer.
Eu sinto isso, agora.
Como se eu estivesse numa realidade prévia da minha vida, uma realidade que corre paralela a ela, com a velocidade alterada e sensações superficiais, meio como um resumo em itálico (propondo-me sempre aquela coisa de velocidade, irrealidade, alteração ou negação de sentidos).

20070610

Como resolver seus problemas em três etapas:

1 Respira, respira, respira
2 Não pensa
3 Fica bem

de Alice

Se não existe sentido neles, isso nos poupa um grande incômodo: não precisamos procurar nenhum sentido.

Lewis Carroll

this

And make this place a heart to be a part of

Interpol

20070609

_________

___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________

Nublo-mê!

Meu pavor de janela não depende mais de mim, depende dos cheiros. Tenho pavor de cheiros; não obstante, pavor de janela. O inverno faz com que minha casa feche os cheiros e a janela. Não consigo gelar-me mais, e mais, e mais, ao que o inverno gelou-me hoje, infinitamente fosca. Nublo-me, nublo-me, nublo-mê!

Deitei-me e espiei (-me n) o céu. Um quadrado de céu azul, variado de nuvens e cinzas humanas, tapando meus desconcertos para o futuro, que já me bastavam por não serem; insatisfeitos, sumiram.

Marimus. (Não sei que graça vejo em escrever as palavras ao contrário. Parecem-me bonitas, inacessíveis, insaciáveis, espontâneas. Como se eu estivesse a escrever códigos, como muito bem eu fazia, uma vez, ou algumas muitas, em Indaial.)

Meus dias aparecem sempre mais pra mim, um tanto ou dois, chatos. É, insignificantes e chatos. São nublados de sabor e evitados de cheiros. Insuportáveis cheiros.

(Estoy hablando, freneticante, cosas absurdas. É b de vaca ou b de boi?)

Dois mil e seis 2

Eu quero uma fala de barriga vazia. É cômodo vomitar a fala com sensação de finalmente. Desta vez pretendo economizar vazio para ficar quieta - observando o teto até ficar tonta. E depois, vomitar a barriga. Aí falo sem vazio. Sem nem vazio na barriga. O buraco do vazio da minha barriga vomita uma fala vazia.

Dois mil e seis 2

Eu tenho alergia de quem fala pelos cotovelos.
Eu, às vezes, tenho alergia de mim.
Então, fico quieta.

Passe bem, meu bem

Algumas coisas passam, outras prometem, sempre prometem passar.
Espero da vida que ela passe. Passe bem.

isti

isti

DES

Dois mil e seis 2

Esvaziar a cabeça de ar. Tirar o rei da barriga e depois fechar o umbigo. Aperta o ponto entre o dedão e o dedo indicador da mão direita. Aperta mais forte até cansar a mão esquerda. Começa a enjoar de novo. Parece que o rei da sua barriga decide incomodá-la por mais um momento. Percebe um buraco dentro do estômago, negro. Não há fim. Precisa de mais ar na cabeça. Arrepende-se de ter tirado o seu excesso. Tenta recupera-lo. Desta vez pelo umbigo já fechado. Antes, o olho chorava ar. O problema será o ar subir-lhe à cabeça. Levará quantidades de alimento. Através dos olhos, vômito. Restos digeridos de cenoura, batata e macarrão ao molho de tomates frescos (já não mais frescos). Mais um almoço a menos. Os vômitos ausentes sumiram no buraco negro. Não precisa mais esvaziar o corpo. As coisas - todas - somem dentro de si. Sem sombra de dúvida (e isso significa que, ou a dúvida não tem sombra, ou não a trouxe consigo, ou, se tem, não está por perto), está vazia.

(Uma pessoa vazia vale mais que duas cheias de vômitos mal resolvidos.)

Ácida, gélida e pálida

Abraçava-me sempre e ruia-me ao vento
Esse que, quando eu sentia passar,
empurrava-me aos teus braços
Lentos, lentos passos
Quando irei fazer em mim?
Fracos, longínquos, olhares baços
Na gélida e pálida saudade,
hoje.

20070607

Não passa, não passo

Eu não passo de milhares de palavras desconexas e silêncios sem significados, eu ja conheço em mim mesma todas as vontades de chocolate e de vômito. Saio de casa e respiro o ar gelado que resseca minhas vontades e minha garganta. Sei que essa vida não passa de chuva em céu aberto.

20070604

É como se corresse sem sentir o chão. Eles não me vêem mais como eu era vista. Eu não vejo mais neblina que possa esconder.

20070603

des des des des des des

Deixar preocupações quanto à lembranças (agora, nubladas). Deslembrada.

1

/Alícia 1 Tenuíssima partícula de terra seca, que diz o que quer, sem medir conveniências. 2 Uma unidade num grupo de pessoas, animais ou coisas de que é parte, ou um conjunto, formado de duas ou mais partes, desse grupo. 3 Alguma coisa, qualquer coisa. 4 Dificuldade ou complicação, contradições que podem não ser tão bem percebidas. 5 Duas dúvidas. 6 Ato ou efeito de pensar de novo, em forma de repolho: gordo e rechonchudo. 7 O último passo antes de molhar o pé na água do mar. 8 Pensamento-quase-fala fora de ordem. 9 Inflamação no encéfalo.