20130401

Apavorada, devoro ares por nada.

Nesse silêncio social, burburinho de arroz ficando pronto, ânsia de sair correndo antes da hora. Nessas coisas que só por dentro cabem, nem palavra alguma ou sutileza antiga decifra. Pois já é hora de encontrar outras áreas, outros raros pares, azares, tentares, se aproximares de mim. Ágar-ágar, afagar, afogar, fenestrar, fissurar, ronronar, arranhar, enrugar. Roliças e insolentes tentativas. Fisgar, fugaz. É tudo que quero. A minha espera é nesse meio-tempo, culminar os minutos sobre as horas, os segundos sobre os dias, os milésimos de segundo sobre os anos. E assim vai. E assim vamos. E assim recuperamos um a um os elogios. Calamos sílaba por sílaba, passo por passo. Toda a saliva se transforma em mar e nos leva. Aproveitar a saída, a rasteira, as dicas proibidas, inibidas, fingidas, últimas, celestes, pestes, doenças contagiosas. Tosse crônica é a voz de quem perdeu a voz mas não pára de falar, de esbarrar ranhuras, luzes, línguas, lisuras ou asperezas. Gafanhotos, marmotas, bergamotas, espertezas. Vamos discutindo, conservando, pepinos e vampiros. Tanto sempre faz tanto que desfaz. Vômito na ponta da língua, texto azul e frios apertos. Como se fosse algo que dura, mas contudo zero-a-zero. É na guerra que te enterro entre as guelras que não mais respiram. Lobos guarás e raposas laranjas vislumbradas com as hienas gritando aos gargalhos, te chamam de gárgula. Te reprovam por excesso.

20130331

parte de ti

parte de ti silencia,
parte de ti
cacofonia.

20130326

Falar pra dentro
Engolir pra fora
Nadar no vento
Abraçar por carta
Cada felicidade

20130321

se me conhecessem diriam tudo por uma boca só.

um diz que sou amorosa e querida. o outro diz que sou grossa e ainda certinha demais. já outro diz que tenho feito tudo errado na vida.

sair da linha. cair no plano.

não ser convicto. nem coerente. discordar do próprio pensamento. desconfiar de si mesmo. intuir ser outro. noutro. com outro. e aí que está a segurança de viver errado. na insegurança que é cambalear. cair e não levantar. ser feliz no chão. com o chão. para o chão. na dúvida que está em cada decisão. na incisão de cada dúvida. na sinceridade dos vultos que vivem por dentro do corpo. nos órgãos afagados por almas terceiras. nas lamúrias amigas e nas petúnias dissimuladas. pois o mundo é são demais. o mundo é pronto demais pra viver. tira o chão. e aí? como cambalear sem chão? não poder cair é o cúmulo do céu sem chão. não poder voar é o túmulo de quem se acomoda nas nuvens.

20130314

é mais eu aquilo de mim que não entendo

é maisena ou esquilo de tinta que em vão invento
é uma pena farinha de milho no pão ao vento
é pequena a gota do nilo no cão mais lento
é amena a brisa em quilo que tão logo tento
é em viena que o mirtilo furacão ciumento
quando quem quer que esteja lá, quando de fato está. dentro da tua cabeça. quando tua cabeça 'tá mais pra lá do que pra cá. quando não sabes o que se faz aqui. quando mesmo, ainda que não, ainda que quase nada aconteça fora da cabeça. porque dentro da cabeça é o fora do mundo. e por dentro ninguém repara. só apara. apara. apara. para. compara fora e dentro. porque cabeça de ninguém 'tá pra negócio.

20130311

(a vida é só uma parte da dúvida)

20130310

por ânima.

desse vício de desejar partir. de querer sair. de dentro. de quando se entra. de quando se tem a vida em lugar algum. por conquistar o fora. por fora. roendo a vida pelas bordas. até consumir tudo o que der. tudo o que couber. nas palavras. por procurar outra borda inteira. pra roer de vez. e partir de novo. pra viver. eu preciso sair. de mim. o tempo inteiro. até que o desequilíbrio volte. o desconforto. a desconversa. a timidez. até que eu não me reconheça mais. de uma vez. de outra vez. por todas. de todas. por nenhuma. por ânimo. desvio. de mim. sempre que posso. disfarço. ser outra.

20130228

Acordei com a frase: oito nomes para uma letra.

Imagine se cada letra tivesse um nome, algo como: se o nome da letra A fosse Bruno e o da letra R fosse Felipe, respiraríamos Bruno Felipe Bruno Felipe Bruno Felipe... Agora imagine oito nomes para cada letra!?!

Bruno Alice
Débora João
Maria Clarice
Flora Damião

Felipe Emília
Isabela Manoel
Aline Patrícia
Luiz Gabriel

Seria uma baita função respirar.

28/11/2012

Todas as ideias porta afora, caminhando sobre a grama, de passo a passo sob o sol, bêbado amarelado: gelado sol porta adentro, palavras de um lado pro outro, se aproximando umas das outras enquanto as sílabas se espreguiçam em dois litros de coca-cola.

21/11/2012 - carta

Poderia te escrever uma carta se acaso as palavras que viessem até mim fossem aquelas que pairam entre nós, que não se limitam a chegar em ti, que não se limitam a sair de mim, mas que se conversam entre si, palavra com palavra, e roubam nosso ar ao suspendê-lo num respiro próprio.

Meu avô fumando palheiro

,
minha avó enrolando os cabelos
,
um dia ensolarado
,
primos pra tudo que é lado
,
de noite a canastra na mesa
e a criançada na cama
,
mal sabiam eles que a gente continuava
pulando em pensamento.

Não deve ser fácil

esquecer tudo assim, como num grito solto por dentro do corpo, que te corta ao meio em te deixar a sós com o mundo afora, em teu mínimo andar cambaleante sobre a borda de uma dessas xícaras que tu empilhas com tanto amor sobre a terceira prateleira, uma dessas xícaras onde qualquer um bebe, mas sem te fazer cair, mesmo que pra sempre fiques ali, sem lembrar nem esquecer o abismo que foi o teu falecimento.

20130218

pequenas tragédias

desgraças miúdas
minúcias falácias
fiascos funestos
híbridos batuques
beliscos profanos
injúrias puídas
vícios nocivos
dias infestos

20130216

aquilo de que se desistiu. 
se largou de mão. 
se empurrou ao vão. 
que se latejou. 
se revirou. 
cortante. 
criou raízes.
internamente.