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20120824

ar que respiro, que respiras

Tem momentos em que você não se reconhece: misturas aleatórias dentro da cabeça: ex-namorados, ex-amigos, ex-familiares: ex é tudo o que me amolece quando penso que podia ter continuado: muita intimidade por água abaixo: muita pele, muito ar que respiro, que respiras, que respiramos coletivamente: capturas cruzadas de olhares, aconchegos ao vento sul, descansos ao vale do rio, pulsação à montanha sobre névoa: ser de passado plissado amassado: vida franzida: quem sou eu senão um pano pregueado que nem maracujá maduro, que nem neném recém nascido: é só de passado: é só de presente-futuro: que é passado, que é plissado, que é amassado: descansando que nem massa podre: gostosa, mas podre: como vou me reconhecer, se nem sequer me conheço? se sou ex-eu toda vida, a cada momento: é um andar diferente, um jeito estranho de respirar, uma fala falha, um pensamento teimoso: cada coisa que se forma é sob ex-eu: que me reforma, que me suspira, que me: ex-me.

20120517

Uma lasquinha de sol no rosto,

logo pela manhã, deixa uma das dobras da testa um pouco mais iluminada das loucuras todas: loucas! loucas! loucas! A dobra é a menos tresloucada do que todas as outras. Ela é a única que percebe toda a aflição das dobras enquanto lutam para todos entenderem: as coisas não passam, as coisas franzem! Onde é plano as armadilhas estão armadas ou em processo de armação, já onde é franzido, todos sabem, as armadilhas dormem. E a luz, caso pegasse em plano, queimaria qualquer loucura em extensão de pele e isso soaria como a maior sensatez de todas: o medo de mudanças e de andanças: a pele lisa e única em sua polidez. Armadilhas dormidas não mais, o que seriam das faces dormidas se as peles-sensatas não percebessem a aflição das dobras? É um único/é um úmido/é um vício. O que é plano escorrega as coisas para frente, para trás e para os lados, como se nada se misturasse o tempo inteiro, que é inteiro por não ser segmentado em elegantes peles estáticas na [vida]. Não são camadas e não são organizadas, são só banhadas num todo que se encontra a todo instante e brilha por ser de gel, de geléia ou de doce-de-leite. Peles brilhantes descansam em paz e em doçura.

[2009]

20120507

Penso em cobertas azuis ou vermelhas

quando estão bem amarrotadas e cheias de sono. Viviam me dizendo para arrumar a cama: espantar meu sono de lá: enxotar os franzidos da noite. Eu nunca gostei muito desse método para acordar, gosto de saber que meu sono está guardado por dentro das dobras da coberta (pode ser a azul ou a vermelha). Parte do meu sono vem comigo para o banho: lá se vai sono ralo abaixo (ralo é rico em sono)(barata se alimenta de sono para não precisar dormir)(sono e cabelo se atraem). Mas a coberta, oras, não precisa disso, não precisa do dia dentro dela, ela é amaciada de sono, sonho e aquela dispersão de gente deitada. Por dentro das dobras da coberta tem uma sensação de livro de página amarelada, aconchegante e dormida. Cada franzido tem engolido um pensamento (ou dois, isso depende do espaço que cada pensamento ocupa no franzido e do espaço que o franzido tem para cada pensamento). Franzidos não estão só na coberta, mas também nas testas (com sono ou sem sono, com pensamento ou sem pensamento). Tem testa que franze tanto e é tão vazia, tem testa que franze pouco e transborda e tem testa que é certa, é focada na [vida], pensa e franze num equilíbrio que só na maior disperção das coisas planas que se consegue notar. Tem testa que é como coberta vermelha. Tem testa que é como coberta azul. [Tem testa que é do Tokyo e tem testa que não. Tem coberta que é do Tokyo e tem coberta que não.]

[2009]

vida franzida de roupas, pés, maracujás e nenéns

[eu me movimento][eu me dobro][a minha vida franze][a minha mãe chama franzir de emburrugar][eu me emburrugo toda][a minha saia é plissada][a minha roupa amassada eu não passo][a minha vida não é passada][a minha vida é franzida][a minha vida se encosta nela mesma][as dobras dos meus pés também][a minha testa franze pouco][as das pessoas variam][os maracujás me entendem bem][os nenéns também]

[2009]