e a palavra pode ser o que as coisas permitirem.
20100620
desejo e nonsense
Precisa-se de um vestido para uma festa, pois o guarda-roupa está vazio de vestidos para a específica festa. Portanto, caminha-se até uma loja de sapatos e compra-se o mais bonito deles. Resolvido o problema: o guarda-roupa não está mais ausente de vestidos, uma vez que eles subsistem o sapato que foi comprado.
20100619
chuva, chave e wc
Num lapso de tranquilidade por distração do trabalho (coisa periódica frequente) acreditei piamente que a chuva fosse uma goteira inquieta no banheiro. Lógico que a coisa (a distração com o trabalho ou a chuva-goteira) começou a se tornar mais intensa, foi que desconfiei que eu não poderia tomar banho de chuva nesse frio, já que a chuva não é elétrica como o chuveiro. (Se o chuveiro chove chuva, o chaveiro chove chave? Por isso um molho de chaves!) Se chovessem raios, pelo menos (voltando ao chuveiro). Engraçado que o chuveiro é elétrico, é colecionador de pequenos raios, mas não parte a gente numa trovoada particular. E quando chove a chuva, coisa esquisita, chove em todo o lugar. O mundo não tem outro cômodo que não o banheiro?
20100616
saltar no abismo da própria cabeça
Abismada, corrompida, dissimulada, mal-vestida, louca de pedra, de palavra, ausente de sono, de saída, sacudida que melhora a vida, um dia depois, um dia antes, a noite, a lasca de lua que parece unha, que parece lenta na rua, na cabeça da gente, no sonho perdido na fronha, no edredom, na vontade de pular, de correr, de saltar e morrer enquanto sonha.
20100615
(sons de um sono sonso, não nosso)
sonosonosonosnsonsosnosnsonsosnosnosnosnsonsosnosnsonsosnosnosnsonsosnosnsonsossonosonosonosnsonsosnosnsonsosnosnosnosnsonsosnosnsonsosnosnosnsonsosnosnsonsossonosonosonosnsonsosnosnsonsosnosnosnosnsonsosnosnsonsosnosnosnsonsosnosnsonsos
vale deixar claro:
Quando eu comecei a escrever os "limericks" a minha única preocupação estava no nonsense (nem sempre alcançado) e nas próprias rimas, mas soube há um tempo por aí (não lembro onde) que um poema nonsense tem outra regra, a de que a terceira e a quarta linha devem ser menores que as demais, que variam entre 7 e 12 sílabas. Portanto, eu não escrevia/escrevo limericks, mas sim quase-limericks!
20100613
Situações possíveis de escorrer, de não-escorrer, de sentir e de não-sentir:
1 estar escorrendo e sentir-se escorrendo, como chorar bonito ou chorar alto
2 estar escorrendo e não sentir-se escorrendo, como num esconderijo subconsciente de si mesma
3 não estar escorrendo mas sentir-se escorrendo, numa ânsia/invenção/proposição de sentir
4 não estar escorrendo nem sentir-se escorrendo, como as máquinas que esbarramos pelos shoppings, pelas imobiliárias ou pelas universidades (nem preciso citar os políticos ou os matadores de foca)
(escrito há um ano e dois dias em resposta à Tati Plens. estou num momento de relembranças, na situação terceira)
20100606
20100605
esgotar
Acordei pra não saber, dormi pra não saber. E, numa regressão de fatos, há dois anos estou não sabendo todos os dias. Eu sei que há anos eu já esgotei o que não deve ser passageiro, por isso hoje tudo é paisagem. As paisagens são destruídas o tempo inteiro e se transformam e se deformam e nada. O que não deve ser passageiro me faz alguma falta passageira. Pelo motivo de não ter passado ainda, mesmo depois de tanta paisagem sobre paisagem. Permaneço mal humorada, mas queria apenas permanecer quieta. Tenho que me permitir na prática, minha amiga sublinhou há algumas horas. Me permitir? Estou enjoada, quero vomitar. Era mentira. A verdade é que isso tudo é muito estranho. Frequentemente acontece algo que me tira da minha vida e, então, lá vou tentar me achar no meio da confusão. Quando eu afirmo meu mau-humor, ele mais tem a ver com algum tipo de preguiça, que não se refere a uma preguiça física, evidentemente. É um enjôo das coisas, como eu disse antes (a mentira era outra coisa). Será que é mesmo por aqui que as coisas vão ficar? Repetidas vezes a mesma situação. As pessoas são loucas mesmo. Se eu fosse uma minhoca seria natural me permitir ser transformada e deformada junto das paisagens, e destruída também. Mas sinto que eu já esgotei as goteiras do desgosto.
exercício de despensamento
clarear até à cegueira ou criar uma preocupação fictícia que sobrepõe o resto todo
Nem adianta tentar.
Deixar-te. Eu tenho medo do ótimo. Trovão sob trovão. As coisas trocam de lugar. Umas com as outras. Gosto de cigarro. Apagado. Eu queria pensar tão baixo que nem eu. Conseguisse ouvir, esquecer. Não há. Como dormir pra dentro do outro. Pensamento. Escapar do que eu acho.
Não vou achar. Nem perder.
20100604
vida adentro vida afora
frustrante é dormir e sonhar a noite inteira com o dia seguinte em tempo que parece real e depois ter que acordar e viver um déjà vu de 24horas. também é acordar achando que está indo dormir. esses dias aconteceu de eu estar num sonho, na maior realidade do mundo, e viver uma garota que participava de uma peça de teatro na qual deveria expressar-se em francês. o porém é que ela estava muito frustrada com a sua memória de peixe que, justamente por viver uma vida acordada e outra dormindo, a fez esquecer de todos ensaios da peça (das falas e gestos). por isso ela estragou com o grande evento final do sonho e acordou depois de desejar boa sorte aos colegas de trabalho que viajariam dali alguns minutos até uma ilha distante. o que ela não sabia é que eles estavam fugindo das loucuras dela. e o que eles não sabiam é que ela não via a hora de acordar para a vida seguinte, onde ela tomaria tanto café que não conseguiria mais fechar os olhos e olhar pra dentro de si mesma.
humor de ônibus que para em todas as rodoviárias do caminho
deu tudo certo por lá na medida em que a chuva permitia: costurei um caderno e ganhei um livro, ambos lindíssimos. minhas pernas estão mais inquietas do que nunca e no ônibus minhas mãos ficaram dormentes muitas vezes seguidas. vou terminar de ver delicatessen (ele ficou aberto na minha cabeça por esses dois dias) e dormir.
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